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    Acompanhar ou seguir?

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  • Acompanhar ou seguir?

    Padre Geraldo Martins


    Quantas pessoas seguem você em sua rede social – twitter, instagram, facebook? Para muitos, o número de seguidores é um valioso critério para medir sua popularidade, sua capacidade de influência ou o alcance de suas ideias. Alguns perfis têm um número de seguidores estrondoso, de forma a causar inveja em muitos. Na prática, o que isso significa? A quem, de fato, vale a pena seguir sem correr riscos de decepção ou de cair no erro?
     

    No Evangelho deste domingo (8/9), Jesus mostra que há uma grande diferença entre acompanhar e seguir. Acompanhar é próprio de quem não se compromete com quem é acompanhado, de quem busca os próprios interesses, de quem está junto apenas enquanto não é contrariado nas suas opções, ideias e projetos. São Lucas diz que “grandes multidões acompanhavam Jesus” (Lc 14,25), que se dirigia para Jerusalém, lugar de sua paixão, morte e ressurreição. Jesus não se entusiasma com isso porque conhece as razões da presença de cada um dos que estão a caminho com ele.
     

    A proposta de Jesus é que aquelas multidões não apenas o acompanhem, mas passem a segui-lo e se tornem um grupo de discípulos/as dele. Ao contrário do acompanhar, seguir implica comprometimento com aquele a quem se segue; significa assumir, na própria vida, o projeto daquele de quem se é seguidor; comporta fazer opções que, muitas vezes, exigirão anular a própria vontade em favor da vontade de quem se segue. Seguir é tornar-se discípulo, assumindo, na própria vida, as causas do mestre com suas inevitáveis consequências. Isso passa longe de quem se propõe a apenas acompanhar. Quem só acompanha, diante da menor dificuldade, não tem escrúpulo em abandonar a marcha; quem segue, torna-se discípulo e vai até o fim, enfrentando as adversidades com a coragem que lhe vem do mestre, seu guia e inspiração.
     

    Qual o caminho para fazermos a passagem do ‘acompanhar’ para o ‘seguir’ e, assim, tornarmo-nos discípulos/as de Jesus? A resposta está no evangelho de Lucas: preferir Jesus à família, carregar a cruz e caminhar atrás dele (Lc 14,26). Se não formos capazes disso, apenas acompanharemos Jesus e jamais desfrutaremos o sabor de ser seus discípulos/as.
     

    Desapegar-se da família é assumir Jesus como razão primeira e insubstituível da própria existência. É tê-lo como a única referência dos valores que hão de dar sentido à nossa vida. É reconhecê-lo como valor absoluto de tal forma que sua palavra, seu projeto e sua mensagem nunca sejam negligenciados.
     

    Carregar a cruz se traduz no compromisso com a vida, com a justiça, com a dignidade humana, com os direitos humanos. É dizer não ao indiferentismo que nos cega diante da violação dos direitos humanos e injustiças que agridem a dignidade humana. É rechaçar a omissão que nos põe numa zona de conforto e nos torna cúmplices dos autoritarismos políticos, dos mecanismos que produzem pobreza, miséria e exclusão. É abrir-se ao mundo plural e diverso e dizer um basta à intolerância, ao preconceito, à discriminação. É ter coragem de posicionar-se contra pronunciamentos que tecem loas a ditadores e torturadores, flertando com o autoritarismo e o revanchismo; é ter a coragem de colocar-se contra posições que estimulam a violência e o desrespeito ao diferente.
     

    Caminhar atrás de Jesus, terceira exigência para tornar-se seu discípulo/a, não é outra coisa senão fazer o mesmo caminho que Ele fez: assumir a causa dos pobres e excluídos, defender os fracos e descartados, ir ao encontro dos doentes e pecadores, levar vida para todos. É anunciar a alegre notícia da salvação e da libertação; é denunciar todo sistema que oprime e mata, como nos lembra o Grito dos Excluídos deste ano – “Este sistema não vale: lutamos por justiça, direitos e liberdade”. É colocar-se nas marchas e mobilizações que gritam em defesa das liberdades democráticas, do cuidado com a Casa Comum e de uma sociedade em que prevaleçam as relações de amor, de fraternidade e de solidariedade. É assumir causas como a do Sínodo para a Amazônia e propostas como a de uma ‘Igreja pobre com os pobres’, sempre ao lado dos mais vulneráveis, longe dos caminhos da intolerância, da indiferença e da omissão.
     

    Passar do ‘acompanhar’ para o ‘seguir’ Jesus é uma difícil decisão que implica discernimento. O próprio Jesus lembra isso no Evangelho ao contar as parábolas do construtor da torre que não planejou bem seus custos e do rei que, partindo para a guerra, avalia se tem condições de vencer o adversário (Lc 14,28-32). Dói constatar que muitos se tornaram cristãos sem que isso significasse uma decisão madura, consciente e livre. Não são capazes de 'renunciar a tudo que têm" para seguir Jesus (Lc 14,33). Por isso, apenas o acompanham, como a multidão do Evangelho, sem compromisso com seu projeto. Fazemos parte dessa multidão?
     

    O discernimento para a decisão de seguir Jesus requer a sabedoria que nos vem de Deus. Sem ela, não descobriremos os desígnios de Deus revelados a nós por Jesus e corremos o risco de tomar os nossos planos como sendo os de Deus. Jesus é a Sabedoria de Deus encarnada que torna retos nossos caminhos e nos ensina o que agrada a Deus. Somente por Ele seremos salvos (cf Sb 9,18), desde que passemos do ‘acompanhar’ para o ‘seguir’.

     http://toemdias.blogspot.com/2019/09/acompanhar-ou-seguir.html