Igreja, mina e fazenda do Fraga : Patrimônio Arqueológico de Mariana tombado pelo IPHAN

    Mariana é a primeira vila, primeira cidade de Minas, primeira eleição, primeira Câmara, primeira cadeia, primeira capital, primeiro bispado, tem a primeira Igreja católica de Minas, tem a primeira Igreja e cemitério protestante do Brasil, terra de Pedro Aleixo, presidente do Brasil !

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    Em Mariana foram achadas as primeiras pepitas de ouro que atraíram milhares de pessoas para o seu entorno. Devido a sua importância foi criado um Estado englobando Minas e São Paulo, e logo com a descoberta do ouro em Goías, este território também foi incorporado ao novo Estado. Assim podemos dizer que Mariana foi capital de Minas, São Paulo e Goías ! Mariana é a única cidade do Brasil que foi capital de três Estados ao mesmo tempo !

    Para alimentar essa crescente população foram as pressas sendo construídas plantações, e fazendas junto as minas de ouro, pois as cidades mais próximas que poderia abastecer Mariana eram próximas ao Rio de Janeiro, São Paulo e Taubaté, terra de muitos bandeirantes que fundaram distritos de Mariana !
    Nos locais de mineração era necessário também plantar, e também ter serviços religiosos, vistos como essenciais naquela época de muita religiosidade! Uma desses locais que foram fazendas e minas de ouro e Igreja é conhecido como Fazenda do Fraga, vizinho de Bento Rodrigues.

    No Fraga funcionava uma fazenda, com criação de gado, mina de ouro e plantação e também tinha uma Igreja de grande porte, devido ao numero de pessoas que lá morava.
    Hoje o local é tombado pelo IPHAN como patrimônio arqueológico, histórico e natural e está sob o zelo da Vale.

    È um patrimônio que muitos marianenses não conhecem e nem é tombando como patrimônio municipal, apenas federal. O tombamento municipal é importante reconhecimento local para o povo de Mariana pois é o reconhecimento da importância para nossa história passando a integrar no inventário dos bens patrimoniais municipais.

    O acesso ao local é restrito e controlado pela VALE, além de ser perigoso por se encontrar em área de mata fechada, e ainda ser berçário de bodões e saçuranas, que queimam a pele como fogo, tem demais por todo caminho, milhares; as mais novas com fiapos de pelos brancos, e as adultas com pelos pretos e os bodões com seus pelos em formatos de chifres coloridos, se esbarrar dá até febre ! As ruínas da Igreja do Fraga, da fazenda, o local da antiga mina, são belíssimos, ainda bem que estão protegidos para posteridade, porém sem reconhecimento oficial pela Prefeitura de Mariana.

    Contextualização Histórica – linha do tempo

    1732- Gregório Pereira Lima, residia em um sítio e tinha uma lavra de ouro localizado no “tapuanhuacanga de Bento Rodrigues”. Como toda mineração que prosperava foi erguida uma Capela dedicada a São Gregório e a Nossa Senhora do Livramento, registrada em 1732 pelo Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana . È a primeira prova documental de ocupação do lugar. Também no Dossiê de Tombamento de Bento Rodrigues encontra-se essa informação.

    1747: O coronel João Gonçalves Fraga, cavaleiro da Ordem de Cristo e morador no Morro de Bento Rodrigues era mineiro, e também negociante de terras dos mais afortunados, com propriedades em Pernambuco de acordo com seu inventário na Casa Setecentista em Mariana, onde consta que 1747 ele comprou a propriedade do antigo dono já com a capela, porém construiu a sede da fazenda, dando início a ocupação da família Fraga.  Coronel João Gonçalves Fraga aparece na lista dos 1.061 homens mais ricos de Minas, mandada a fazer pelo Conselho de Marinha de Portugal para buscar recursos para reconstrução de Lisboa após o grande terremoto de 1755, de acordo com Flávia Maria da Mata Reis em sua dissertação de mestrado UFMG.

    1754 – Estevão Gonçalves Fraga, sobrinho do Coronel Fraga, natural da região do Minho, veio para Minas para servir seu tio, o coronel João Gonçalves Fraga, já idoso, ficando responsável pela administração das lavras e engenhos de ouro. Herdou a propriedade em 1754 devido ao Coronel não deixar filhos.

    1803: Padre Domingos Pereira Fraga, português que chegou em Mariana em 1770, é o terceiro na linha sucessória de ocupação da Fazenda. Veio para fazer companhia ao tio Estevão e se ordenou padre. Estevão assim como o Coronel João Gonçalves morreu solteiro sem deixar filhos. Assim em 1803 o padre Domingos Pereira Fraga, herdou todo seu patrimônio, incluindo a “Fazenda do Morro” que passou a ser conhecida na região por Fazenda do Padre Fraga, principalmente pela “Capela do Padre Fraga”, vindo todo o morro a ser reconhecido posteriormente como “Morro do Fraga. Em 1801 nas visitas pastorais do bispo de Mariana, Dom Frei Cypriano, encontra com Padre Fraga, então com 46 anos, listado como um dos 12 padres do Inficionado, hoje Santa Rita Durão. Ele foi quem mais tempo ficou na região, 61 anos ( da chegada em 1770 até o falecimento em 1831).

    1831 – Maria Cândida  assume a a propriedade, fazenda e minas,  herdeira do Padre Fraga através de testamento feito em 1830. Ela nasceu em 02/02/1809, como exposta, órfã e ficou conhecida pelo nome de “Filha do Padre Fraga” mesmo depois do casamento em 1822.Ela desaparece da história, evidenciando o abandono do local que passa a ser conhecido posteriori como Morro do Ouro Fino, nome da mineração vizinha.

    Dias atuais: As evidências arqueológicas, estudos e escavações de acordo com estudos divulgado na publicação na Revista Latino-Americana de Arqueologia Histórica de autoria de Loredanna Ribeiro em 2012, apontam abandono da fazenda em algum momento da década de 1850, época em que as companhias de mineração de capital inglês, como a Ouro Fino se instalaram a 3 Km do local da fazenda do Fraga. Não achou-se nas escavações materiais classificados como acima de 1845 / 1850, sendo considerado esses os anos de abandono da Fazenda. As ruínas da suntuosa Igreja de São Gerônimo e Nossa Senhora do Livramento ainda se erguem altas como a dar testemunha do próspero passado distante.

    Depredação : O local já foi todo revirado por pessoas que faziam buracos acreditando em lendas de tesouros enterrados! Grande parte do material de pedra sabão, ou pedra talhada da Igreja foi roubada quando o local foi abandonado, desmontada parte da cantaria da Igreja, porém as largas paredes de pedra ainda se mantém de pé, apesar da vegetação nascer entre as paredes que hoje é a maior ameaça ao local, que só existe devido ao monitoramento constante da VALE por meio de vigias e do IPHAN, e também seu difícil acesso.

    Referências de viajantes que passaram pela região e na Fazenda Morro do Fraga

    Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptiste von Spix  – 1817

    Ambos os alemães Carl Friedrich Philipp von Martius, médico, botânico e antropólogo e o cientista naturalista Johann Baptiste von Spix receberam a incumbência da Academia de Ciências da Baviera de pesquisarem as principais províncias do Brasil. Chegaram com a comitiva da grã-duquesa Leopoldina ( ela Maria Leopoldina da Áustria (1797-1826) foi imperatriz consorte do Brasil, a primeira esposa de Dom Pedro I, mãe de Maria da Glória, que viria a ser Dona Maria II, rainha de Portugal, e de Dom Pedro II, o futuro imperador do Brasil. Era a avó da Princesa Isabel e da Princesa Leopoldina do Brasil.

    Em dezembro de 1817 atendendo o convite da Imperatriz do Brasil os viajantes alemães partiram do Rio de Janeiro em direção às Minas Gerais, coletando espécimes botânicos, minerais e zoológicos. Quando passaram por Bento Rodrigues, se surpreenderam por não encontrarem ali qualquer sinal de riqueza, como em outros arraiais e também relataram a miséria de seus habitantes, das casas em ruínas e dos poucos vestígios de uma opulência vivida anteriormente. É possível que isso se deva ao fato da queda na produção aurífera em Bento Rodrigues ter ocorrido antes das construções em pedra e adobe cobertas por telhas se tornarem mais comuns, sendo encontradas em apenas algumas grandes fazendas.

    “[…] seguimos na direção N.E. para o Arraial de Bento Rodrigues, distante duas léguas e meia. A região é montanhosa, e a superfície do solo em grande parte coberta com a formação de minério de ferro contendo ouro, e dá indício da atividade dos faiscadores pelos numerosos fossos e trincheiras ali abertos. Muito singular nos pareceu o fato de se encontrar nesta aldeia, assim como em muitas outras, poucos vestígios de riqueza. As casas estão em ruínas, muito pobres no interior, e seus moradores têm aparência pobre. Tudo demonstra que a florescência deste distrito já passou e mal aparecem alguns restos da antiga opulência” (SPIX e MARTIUS, 1981, p. 247 e 250, apud OLIVEIRA, 2015).

    Saint-Hilaire: 1816 – 1822

    Já Saint-Hilaire, que percorreu o mesmo caminho entre 1816 e 1822, parece ter se encantado com a paisagem local.  “A distância pouco considerável de Camargos, passamos por Bento Rodrigues, outra povoação situada à margem de um córrego, entre morros pouco elevados, e que apresenta aspecto bastante pitoresco com a presença de numerosas bananeiras plantadas pelos habitantes em torno de suas casas” (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 87-8, em OLIVEIRA, 2015) .

    Ele estava tão animado em fazer relatos que até desenhou as queimadas em Mariana, em gravuras que ficaram para posteridade. Queimadas que se repetem até hoje!

    Johann Baptist Emanuel Pohl :  1817 – 1821

    Johann Baptist Emanuel Pohl, médico, botânico, geólogo e desenhista austríaco que também passou pelo Brasil e Minas entre 1817 e 1821, visitou a Fazenda do Fraga e disse : “Vimos a grande e bela fazenda pertencente ao padre Domingos Pereira Fraga, situada numa elevação. Esse fazendeiro é tido como uma das maiores fortunas do pais”

    Apesar de ter cruzado Bento Rodrigues na mesma época que os naturalistas alemães e o francês, ele foi o primeiro a informar sobre a existência de exploração de minério de ferro e de fornos de fundição, que também ocorriam nos arraiais de Cocais, Catas Altas, Santa Bárbara e Inficionado ( Santa Rita).

    Ele confirmou o que disse o Barão alemão Eschwegue, diretor da Mina da Passagem, que disse em seus dois livros ( Pluto Brasiliensis I e II ) que a vocação da região era ferro e não ouro !

    Ernst Hasenclever : 1839

    “Atravessei vários córregos, cheguei finalmente ao Morro do Fraga. Raramente vi um casarão tão bonito como esse, uma fazenda solitária em cima de uma colina verde, composta de uma casa principal e várias secundárias. (…) Do lado oposto havia duas guaritas e um grande portão de ferro. Achei divertido como os negros um após o outro entregaram o ouro e em troca recebiam pagamento.” 27 de agosto de 1839 . ( Ernst Hasenclever e suas viagens as províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, pág 162, editora Mineriana).

      Além dos estudos críticos que destacam a sua relevância para o conhecimento histórico, sobretudo, a respeito das minas de ouro inglesas existentes na província mineradora à época, ele traz também um conjunto de correspondências trocadas pelo autor com o cientista Peter Lund ).

     Ernst Hasenclever ainda fez um mapa de sua viagem em Minas. Sua sobre observação sobre os “negros (…) recebiam pagamento”, faz-se necessário dizer que a Igreja Católica em Mariana fazia uma campanha abolicionista, inclusive o bispo Dom Viçoso proibiu entrada de alunos no Seminário cuja família tivesse pessoas na condição de escravos. Em 1843  já recomendavam os padres da arquidiocese de Mariana para dar o exemplo pagar salários pelo serviço prestado.

    George Gardner – 1840

    George Gardner pernoitou no rancho público em Bento Rodrigues entre os dias 27 e 28 de setembro de 1840, tendo partido no dia 27 do arraial da Barra passando por Brumado, Catas Altas e Inficionado. Seguiu no dia seguinte em direção a São Caetano (atual Senador Firmino, MG), onde encontraria o tropeiro que o levaria ao Rio de Janeiro. Segundo ele, havia pouco solo propício para plantações, sendo argiloso entremeado por um cascalho ferruginoso já bastante revolvido na busca do metal precioso.

    Gardner observou, no entanto, uma única mina funcionando entre Inficionado e Bento Rodrigues (1836 – 1841), que poderia se tratar da propriedade do Padre Fraga, ou da Ouro Fino.

    Trecho  original: “Leaving Catas Altas, the road takes a southerly direction, along the foot of the Serra de Caraça; and after travelling about two leagues, we passed through the Arraial de Inficionado, another long narrow village, about the same size as Catas Altas, and, like it, in an obvious state of decadence. About a league further on, we arrived at the Arraial de Bento Rodrigues, where we took up our quarters for the night in the public rancho. The road, on this journey, was far from good, being both hilly and stony; I saw but little soil fit for plantations,. it being generally of a clayey nature, intermixed with a coarse ferruginous gravel, or the debris of the schistoze rocks of the Serra; and everywhere this soil has been turned up in search of gold, but with the exception of a small mine between Inficionado and Bento Rodrigues, I saw no workings being carried on.”

    Tradução .livre por Leandro H. Santos :  “Saindo de Catas Altas, a estrada segue em direção ao sul, ao longo do pé da Serra de Caraça; e depois de percorrermos cerca de duas léguas, passamos pelo Arraial de Inficionado, outra vila comprida e estreita, mais ou menos do tamanho de Catas Altas, em evidente estado de decadência. Cerca de uma légua adiante, chegamos ao Arraial de Bento Rodrigues, onde nos alojamos para pernoitar no rancho público. A estrada, nesta jornada, estava longe de ser boa, sendo ao mesmo tempo acidentada e pedregosa; Vi apenas pouco solo adequado para plantações. sendo geralmente de natureza argilosa, misturada com um cascalho grosso ferruginoso, ou com os restos das rochas xistosas da Serra; e por toda parte esse solo foi revirado em busca de ouro, mas com exceção de uma pequena mina entre o Inficionado e Bento Rodrigues, não vi nenhum trabalho sendo feito.”