
Evento contou com mestres, músicos, pesquisadores, escritores e mais
Por: Hynara Versiani e João B. N. Gonçalves
Na última segunda-feira, dia 13 de maio de 2024, foi realizado o “Acarajé na Mina”, na Mina Du Veloso, em Ouro Preto. O evento foi pensado para promover reflexões sobre a herança cultural afro-brasileira, além da necessidade de reparação e reconhecimento das contribuições africanas.

Idealizado por Alexandre Almeida, o Acarajé na Mina reuniu uma diversidade de pesquisadores e entusiastas da cultura afro-brasileira, contando com a apresentação da Bateria Efigênia Carabina. Ocorrendo na data marcada pelo fim oficial da escravidão no Brasil, o evento buscou ressaltar as raízes negras que moldaram a identidade do país.

Alexandre expressa sua motivação e conexão com o evento: “O acarajé nada mais é do que a minha ancestralidade”. Esse sentimento de resgate histórico e cultural foi o que concebeu a iniciativa, e ele se reflete na preparação dos alimentos e na celebração das tradições.
O idealizador agradece aos presentes, enfatizando o significado por trás do momento. “O Acarajé na Mina tem todo um ritual. Para ele estar acontecendo hoje, eu passei muito tempo fazendo esse ritual, para que tudo se materializasse. A comida foi feita com muito carinho e com muito amor, vamos nos divertir e aproveitar todas as atrações de hoje”, celebra.

Convidado a falar no evento, Mestre Paulo Brasa conta a história de sua vinda do Rio de Janeiro na década de 70, e de sua trajetória como capoeirista. “Durante uma apresentação de teatro de bonecos, encontrei um capoeirista chamado Lua, que já conhecia antes. Ele propôs que eu desenvolvesse um trabalho no local, porque pela visão dele, havia uma necessidade de realizar algo nesse sentido. Tanto ele falou, que me convenceu”, conta.
Mestre Brasa explica que, hoje, há um temor que a capoeira possa sofrer descaracterizações. “Mas a capoeira é livre, como o vento. Ela se incorpora, ganha e perde elementos. Estou falando pela minha ótica. Já que não temos controle, e não estou dizendo que já tivemos, vamos conviver com o que as manifestações da vida nos apresentam”, diz.
Para o mestre, existem tradições novas, ele busca um equilíbrio entre as visões: “Os anciãos precisam dos jovens, porque os jovens dão continuidade, e os jovens precisam dos anciãos, porque eles têm a ancestralidade. Eu sou mais simpático e propenso à chamada tradição nova, à coisa daqui para a frente. É claro que também não temos como cortar o cordão umbilical, por conta da ancestralidade, não é só o novo que existe”.

O proprietário da Mina Du Veloso, Du Evangelista, destaca a importância da data escolhida para o evento: “13 de maio é um dia no qual precisamos fazer muita reflexão sobre o que o processo de escravidão causou no nosso país”. Ele lembra que a história oficial do Brasil muitas vezes distorce a realidade pós-abolição, negligenciando o sofrimento e as injustiças.

Du diz que, após o 13 de maio de 1888, o Estado brasileiro dificultava a vida dos negros no Brasil. “Tivemos a lei da vadiagem: qualquer negro que estivesse perambulando pela rua era considerado criminoso. Se jogasse uma capoeira, por exemplo, ele era preso. Após isso, houve um processo de eugenia, em que trouxeram imigrantes brancos para embranquecer a população”, explica.
O proprietário reforça que o 13 de maio não deve ser apenas um marco de libertação, mas sim um momento de reconhecimento das sequelas deixadas pela escravidão. O Acarajé na Mina foi um espaço para diálogo e aprendizado, dando destaque à importância de preservar e honrar as contribuições culturais africanas na formação da sociedade brasileira.

Foram lançados os livros “Eu, Menina Preta”, de Roberta Froes; “Cidadania e Racismo”, de Otávio Henrique Ferreira Silva; “Do carvão ao Diamante – tudo que você precisa para cuidar sozinho do próprio negócio”, de Lucas Veríssimo; “Poesia Marginal – a rua me fez poeta”, de Júnio Ricardo Magalhães (JR); e “De Onde Vem?”, de Sidnéa Santos, com participação de Du Evangelista. Após os lançamentos, foi feito um bate-papo com os autores para finalizar o evento.

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