Atrás das grades, a arte floresce: Exposição revela o talento e a esperança de detentos

    Obras foram produzidas sob orientação do professor e curador da exposição, Rennan Bentolila

    Por: Hynara Versiani e João B. N. Gonçalves

    Na última segunda-feira, dia 16 de setembro de 2024, na Biblioteca Pública Municipal de Ouro Preto, foi inaugurada a exposição “Cárcere e Arte: Expressões de Liberdade”. As obras buscam destacar o poder transformador da arte, e a mostra é fruto de um projeto que utiliza a arte como ferramenta de humanização dentro do sistema prisional.

    Vários cômodos da biblioteca se transformam em uma galeria, ocupados por obras desde pinturas vibrantes até esculturas elaboradas, cada uma expressando determinada ideia ou vivência de seu artista. Algumas das artes também são feitas coletivamente pelos presos. Todas são o resultado de um projeto desenvolvido pelo Colégio Estadual Mário Quintana, escola na Penitenciária Lemos Brito, que faz parte do Complexo Penitenciário de Gericinó (RJ).

    O curador da exposição, historiador de arte, formando em museologia e professor do colégio, Rennan Bentolila, explica que a ideia surgiu da observação do talento e da paixão dos detentos pela arte. “Quando eu entrei para trabalhar, em abril de 2022, a princípio, era só dar aula. Só que eu comecei a ver a aptidão e o interesse desses meninos pela produção”, conta Rennan.

    Para ele, a arte é uma ferramenta fundamental para a socialização, especialmente em um ambiente que retira a personalidade daqueles presentes. “Eles precisam disso: ter um pouco da sua humanidade resgatada. Porque lá dentro, é muito cruel. Eles não são chamados pelo nome, são chamados apenas pelo codinome ‘preso’”, diz.

    Rennan afirma que, quando chegam à escola, todos são tratados como seres humanos: “O Fernando volta a ser o Fernando, o Jonatas volta a ser o Jonatas, o Thiago volta a ser o Thiago. O núcleo está sendo muito importante lá dentro, justamente porque vemos que os meninos utilizam o núcleo como válvula de escape”. Ele agradece especialmente à atual diretora da escola, Maria Anita.

    Um dos ex-detentos, Jota Carvalho, é o atual diretor de marketing da Academia Brasileira de Letras do Cárcere (ABLC) e fundador do ComuniCárcere. O site foi feito para unificar direitos e serviços carcerários de vários endereços eletrônicos, facilitando o acesso de familiares a, por exemplo, carteiras de visita e pedidos de auxílio.

     Jota expressa sua gratidão pela arte e fala sobre seu poder transformador, dizendo que encontrou na criação artística uma forma de ressignificar sua vida. “Encontrei a liberdade dentro do sistema prisional a partir do momento que conheci pessoas que fazem as coisas com amor. Projetos como esse vão impactar as vidas de muitos, eu fui impactado por projetos de capoeira, por rodas de diálogo… eu sou fruto disso, e é uma satisfação enorme”, declara.

    Outro ex-detento, W.U., define Lemos de Brito como um presídio de dois mundos: “Há o mundo que é da galeria para dentro da cela, e o mundo que se chama Mário Quintana. Ali, pude esclarecer muitas dúvidas, descobri que faço mais estrago para o sistema com uma caneta na mão do que com um fuzil. Ali, descobri que usar o cérebro é melhor que usar balas. A educação me proporcionou isso”.

    W.U. gravou uma música profissionalmente, intitulada “Eu tive”, que está na exposição e no livro “Corpo Preso, Mente Livre: Versos aos Verbos de um Detento”, escrito e produzido por 17 alunos do colégio. “O Mário Quintana foi o divisor de águas na minha vida, precisamos de mais escolas prisionais nesse nível, para que o Estado possa regenerar e reeducar os que estão ali”, pede o músico.

     

    O Colégio Estadual Mário Quintana ocupou, em 2023, a primeira colocação na ExpoEJA, concurso realizado pela Diretoria Regional das Escolas Socioeducativas e Prisionais, com a obra “O Livro da Criação”, presente na exposição. Em 2024, obteve a terceira colocação com a obra interativa em formato de quebra-cabeça chamada “Revelações…”, também atualmente em Ouro Preto, junto a diversas outras obras dispostas pela biblioteca.

    Essa é a segunda exposição artística do colégio em menos de um ano, a primeira tendo sido “Vozes do Silêncio: A Libertação da Alma”, no Rio de Janeiro, entre junho e agosto. A exposição “Cárcere e Arte: Expressões de Liberdade” poderá ser visitada até 15 de novembro, convidando a comunidade ouropretana e região a refletir sobre a importância da educação e da cultura para a socialização.

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