
A jabuticaba é um símbolo identitário do distrito de Cachoeira do Campo: o cultivo, a colheita e a produção de derivados da fruta fazem parte da cultura da região. Uma vez ao ano, durante a primavera, jabuticabeiras carregadas enfeitam as casas e estão presentes em quase todos os quintais. Com a safra abundante e considerando o breve tempo em que o fruto mantém sua qualidade e sabor, colher jabuticabas com a ajuda de toda a família e produzir doces e licores para consumo próprio ao longo do ano faz parte do costume da população, há muitas décadas.
Com a 34ª Festa da Jabuticaba se aproximando, conversamos com famílias produtoras para conhecer melhor a relação e a história do distrito com a fruta. A jabuticaba possui forte influência cultural e afetiva na região, além do impacto socioeconômico gerado pela venda dos produtos. Doces, compotas, geleias e licores eram produzidos pelas mães e avós com as frutas colhidas no quintal de casa, originando lembranças e receitas recheadas de memória afetiva. Atualmente, com as receitas passando de geração em geração, várias famílias ampliaram a produção e passaram a comercializar os produtos.

A jabuticaba é uma fruta brasileira, natural da Mata Atlântica e possui apenas uma safra anual. Ela é totalmente aproveitável, já que a polpa, a casca e o caroço podem ser consumidos, e a variedade de produtos derivados é imensa: molhos para carnes, vinagres, sucos, chás, vinhos e cosméticos são algumas das opções além das mais tradicionais. A fruta é rica em diversos nutrientes como vitamina C, vitamina E, ácido fólico, potássio, cálcio, zinco e muitos outros, além de oferecer propriedades antioxidantes, quando consumida com a casca. Por ser naturalmente rico em açúcares, o fruto fermenta rapidamente após a maturação, e, por isso, deve ser consumido nos primeiros dias após a colheita, ou utilizado na produção de derivados, nos quais o açúcar, álcool ou conservantes adicionados ajudam a preservar o sabor e a qualidade.
Em julho de 2025, Cachoeira do Campo recebeu a Indicação Geográfica (IG) da jabuticaba: esse registro é um selo que certifica um produto ou serviço como proveniente de um local específico, garantindo sua qualidade e valor devido à sua origem. A certificação foi assinada no Fórum Regional de Diversificação Econômica de Minas Gerais (FRDE), realizado em Belo Horizonte. Na ocasião, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Ouro Preto, Felipe Guerra, afirmou que a conquista da IG representa para o distrito uma oportunidade real de geração de emprego e renda por meio do turismo criativo e da economia solidária.
A Festa da Jabuticaba é um projeto do Lions Clube de Ouro Preto, que teve início em 1992 , para estimular a cultura da jabuticaba em Cachoeira do Campo e fomentar o desenvolvimento de produtores. A festa passou por algumas edições feitas fora da safra da jabuticaba e sem a presença da fruta e seus derivados, contando apenas com outras atrações gastronômicas e musicais. A chef Milsane de Paula, proprietária do Restaurante Sebastião, em Ouro Preto, é a atual curadora da Festa, e mudou-se para a cidade em 2019 para trabalhar na reinserção da fruta no evento, buscando resgatar a cultura e a produção na região, além do símbolo da fruta como Patrimônio Imaterial local. “A jabuticaba é o Ouro Preto de Minas. Mais do que uma fruta, é símbolo de pertencimento e esperança, conectando tradição, trabalho e prosperidade”, afirma a curadora.
O evento acontecerá nos dias 07 a 09 de novembro, na Praça Felipe dos Santos, e a programação gratuita conta com cozinha show de derivados da fruta, um tipo de atração em que os produtores cozinham e preparam os produtos ao vivo para o público, lançamento de livro infantil, oficinas, praça de alimentação e shows musicais. Em 21 e 22 de outubro, os organizadores do evento promoveram oficinas para novos produtores, ensinando receitas como a jabuticabada e a geleia de jabuticaba, incentivando o crescimento da cultura local e estimulando as novas gerações a continuar a tradição.
Luísa Saborido e Rodrigo Miranda são proprietários da De Glaura Produtos Artesanais, hoje vivem da venda de geleias, conservas, licores e farofas, e tudo começou com a jabuticaba. Luísa conta que a mãe produzia a geleia, receita que aprendeu com a avó, e comercializava apenas na vizinhança. No final de 2019, o casal pediu demissão dos empregos e estava de malas prontas e passagens compradas para se mudar para Portugal em 2020, mas com a chegada da pandemia, a viagem foi cancelada. Em casa, eles começaram a ajudar na produção de geleia e iniciaram a comercialização em cidades vizinhas. Quando as fronteiras foram abertas, Luísa e o marido já haviam desistido da mudança, aumentaram em mais de dez vezes a produção e profissionalizaram a marca, que hoje é a fonte de renda do casal: “Sinto muito orgulho de passar essa tradição para frente, imagino famílias reunidas em momentos especiais com nossos produtos à mesa. Em Ouro Preto já vendi para pessoas que compraram para levar de presente, sei que nossos produtos já chegaram na Índia, Portugal, França, Itália e muitos outros países ”, conta ela.
O bisavô de Luísa mudou-se de Belo Horizonte para Glaura, distrito vizinho de Cachoeira do Campo que compartilha a tradição da jabuticaba, e vivia da venda de frutas, leite e outros produtos. Na época da jabuticaba, toda a família se juntava para ajudar na colheita da fruta, o que se manteve com o passar das gerações: “Eu cresci frequentando Glaura, colho jabuticaba desde que me entendo por gente. Todo mundo aqui lembra de colher com os pais e avós no quintal de casa, a jabuticaba é um símbolo da região e da história de cada família que vive aqui. Não vendo para pessoas da região porque todo mundo aqui tem jabuticaba, todo mundo faz. Pra gente isso é muito comum, mas precisamos lembrar que não é assim em todo lugar. É uma benção que a região seja tão rica dessa fruta incrível, cheia de vitaminas e antioxidantes, e é uma pena que só dê uma vez ao ano. Por isso fazemos os derivados, para que o sabor perdure”.
A festa anual movimenta a economia dos distritos, atrai turistas e celebra a fruta e a tradição local: “Com uma rede hoteleira robusta, pousadas charmosas e comércio ativo, Cachoeira do Campo está preparada para receber turistas em buscas de experiências autênticas, cultura e boa gastronomia”, explica Milsane.
Para receber notícias no seu WhatsApp clique aqui
E para receber notícias da nossa página no Facebook
Se inscreva no nosso canal do you tube para receber nossas reportagens, clique aqui
SAL : Serviço de atendimento ao leitor – para enviar mensagem, informar erro, elogiar, solicitar cobertura jornalística ou indicar pauta, entre em contato com o Serviço de atendimento ao leitor, via whatsapp, clique aqui