Pesquisa realizada pela Unesp, USP, UFOP e UFMG, identifica plantas capazes de resistir a metais tóxicos presentes em rejeitos de barragem
    As espécies Vernonanthura polyanthes e Piper aduncum demonstraram sobrevivência notável diante de distúrbios ambientais extremos | Imagem: Cortesia de Mauricio Mercadante e Marcelo Kuhlmann

    Há pouco mais de uma década, o Brasil vivenciou o maior desastre ambiental de sua história. Em novembro de 2015, 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos da barragem de Fundão escorreram pelas ruas de Bento Rodrigues e Mariana, em Minas Gerais. Além das vidas destruídas, o derramamento de resíduos da mineradora Samarco causou severa degradação dos ecossistemas aquáticos e terrestres.

    Diante desse cenário, pesquisadores passaram a investigar como a vegetação nativa respondeu à exposição a um ambiente extremo, marcado pela presença de metais tóxicos no solo. Um estudo inédito com participação da Unesp, USP, UFMG e UFOP mostrou que determinadas espécies vegetais conseguiram sobreviver à contaminação causada pelos rejeitos da barragem e se desenvolver na região. Os resultados do trabalho, publicados no artigo Brazilian Mining Dam Collapse: Molecular Networking−Guided Metabolomics Reveals Species-Specific Plant Detox, abrem caminho para o uso dessas plantas na recuperação de áreas devastadas.

    Imagem de satélite mostra como era e como ficou  a área próxima ao Córrego do Fundão, em Bento Rodrigues (MG) | Imagem: Google Earth

    Como o estudo foi desenvolvido
    Os pesquisadores adotaram uma abordagem comparativa entre dois tipos de plantas, a Assa-peixe (Vernonanthura polyanthe) e a Pimenta-de-macaco (Piper aduncum). Comumente utilizadas como tempero ou para fins medicinais, elas foram coletadas em áreas atingidas pela lama de rejeitos, em um raio de no máximo 30 quilômetros do local do vazamento, e em regiões em que não houve impacto imediato, muito embora os rejeitos tenham percorrido 650 quilômetros até chegar ao Oceano Atlântico. Essa estratégia, segundo os pesquisadores, ajudou a isolar os efeitos específicos da contaminação por metais pesados.

    Após serem secas, as folhas das plantas foram transformadas em pó e misturadas a uma solução solvente. Após esse tratamento, a mistura foi submetida à análise de equipamentos capazes de identificar a presença de determinados compostos, além de quantificá-los. Depois de extrair e analisar centenas de substâncias presentes nas folhas, o grupo conseguiu identificar quais delas estavam se multiplicando em resposta aos metais presentes no solo, um passo essencial para desvendar as estratégias de defesa das plantas. “A técnica que utilizamos permite agrupar compostos parecidos e destacar aqueles que realmente mudam por causa da contaminação”, explica o professor Alan Cesar Pilon do Instituto de Química (IQ) da Unesp, em Araraquara, um dos autores do estudo.

    A partir dessa abordagem, os cientistas conseguiram destacar cerca de 50 substâncias-chave conhecidas como VIPs (Variable Importance in Projection), isto é, compostos cuja variação está diretamente associada à exposição a metais como ferro, arsênio, mercúrio e cádmio.

    Entendendo a resposta das plantas
    Segundo o professor Alan, as plantas que resistiram ao desastre tiveram seu metabolismo profundamente alterado. “Isso confronta diretamente com a narrativa presente em disputas judiciais envolvendo a Samarco, de que a área não teria sido tão impactada ou de que os efeitos ambientais já teriam sido superados”, confirma.

    As plantas analisadas foram coletadas meses após o desastre, quando já estavam em fase de crescimento, o que indica que o impacto na região não foi pontual e persistiu por mais tempo do que o imaginado. “Se o efeito tóxico tivesse cessado com o tempo, não observaríamos diferenças metabólicas tão marcantes. O fato de elas estarem lá, e de ainda exibirem esse tipo de resposta, demonstra que o impacto persistiu”, destaca o docente.

    Os resultados das análises revelaram ainda que cada espécie desenvolve respostas bioquímicas distintas frente ao mesmo tipo de contaminação, o que indica que a tolerância ao metal pesado não é uniforme entre elas. Enquanto a Pimenta-de-macaco apresentou maior produção de compostos associados à detoxificação e ao sequestro de metais, a Assa-peixe exibiu sinais mais fortes de estresse oxidativo, um tipo de dano celular desencadeado pelo excesso de radicais livres.

    “Isso é importante porque evidencia que a resistência não é simplesmente ‘sobreviver’ fisicamente. Existe um custo metabólico alto envolvido e esse custo deixa marcas profundas na fisiologia da planta”, contextualiza o pesquisador.

    Além disso, os dados sugerem que algumas vias metabólicas permaneceram ativas por longos períodos após o desastre, indicando que o ambiente não voltou ao equilíbrio. “Quando falamos em toxicidade ambiental, é comum imaginar um cenário de contaminação pontual. Mas aqui estamos falando de um efeito crônico, que permanece no solo e continua pressionando a vegetação”, completa.

    O docente afirma também que a identificação dessas espécies abre possibilidade de uso nas áreas impactadas pela mineração. “Se sabemos quais espécies conseguem se adaptar e metabolizar metais, podemos escolhê-las estrategicamente para reconstituir a vegetação nativa de áreas degradadas”, explica Alan.

    No entanto, o professor faz um alerta quanto aos riscos para a comunidade local com relação ao possível consumo dessas plantas como temperos ou para fins medicinais. “Os testes indicam que, ao absorverem os metais para sobreviver, essas plantas acumulam altos teores de metais pesados em suas folhas e flores. O consumo de chás ou temperos feitos com plantas coletadas em áreas atingidas pode transferir essa toxicidade para os seres humanos”, alerta.

    Trabalho interinstitucional
    Para a pós-doutoranda da USP, Marília Elias Gallon, da FCFRP-USP, primeira autora do artigo, colaborações deste tipo ampliam a percepção sobre o escopo dos estudos, favorecendo análises multidisciplinares e mais abrangentes.

    “Esses resultados contribuem para incentivar o desenvolvimento de pesquisas mais específicas, que possam comprovar a resiliência dessas plantas em condições extremas e a expressão metabólica diferencial de cada espécie”, finaliza. Fonte: Notícias IQ – Unesp – Instituto de Química – Câmpus de Araraquara

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