O cupido também ama

    Por: Domenica dos Santos Psicóloga

    Na mitologia grega, Cupido, deus do amor, lançava flechas mágicas e quem fosse atingido por elas se apaixonaria imediatamente. Era ele quem despertava o amor nos outros, como se estivesse protegido dos efeitos daquilo que provocava. Mas o mito guarda uma ironia, em determinado momento, o próprio Cupido é ferido por uma de suas flechas. Aquele que lançava os outros na experiência amorosa descobre que também pode ser atravessado por ela.

    Ser atingido pela flecha pode ser uma boa metáfora para aquilo que acontece quando o amor nos alcança. Deixamos de ocupar uma posição de controle e somos convocados a lidar com algo que nos escapa.

    Um dos grandes nomes da psicanálise, Jacques Lacan, afirmou que amar é dar o que não se tem. Referia-se ao fato de que o amor nem sempre significa uma doação clara e consciente de algo ao outro. Há nele uma oferta que nasce justamente daquilo que nos falta.

    Difícil alguém escapar desta vida sem amar. E mais difícil ainda amar sem pensar que vamos nos completar. No amor romântico existe uma fantasia de que o outro poderá nos preencher inteiramente e de que, ao mesmo tempo, também seremos aquilo de que o outro precisa.

    Essa ideia produz um movimento paradoxal. Ao mesmo tempo em que nos lançamos em direção ao outro, também nos deparamos com algo de nós mesmos. O amor, nesse sentido, revela não apenas o que sentimos pelo outro, mas também o quanto acreditamos ser amáveis. E não há como amar sem que isso, antes de qualquer coisa, passe em certa medida por nós.

    No entanto, toda essa tentativa de preenchimento esbarra em um limite estrutural que é a falta. Somos seres faltantes. E a conhecida metáfora da “metade da laranja” talvez seja menos romântica do que parece, podendo inclusive ser bastante angustiante, pois não há como liberar amor sem antes ser atingido pela flecha.

    O arrebatamento do grande amor pertence ao campo da paixão, da sedução e, em certa medida, da loucura. E aqui a palavra “loucura” não é exagero. Basta lembrar como a paixão pode suspender a razão e reorganizar nossas prioridades de forma quase irreconhecível.

    Mas não há paixão que dure para sempre, porque o “para sempre” já é, em si, uma medida excessiva para a experiência humana. Então, o que permanece quando a intensidade inicial se transforma?

    Cada um ama a partir da sua própria história, do seu modo de lidar com a falta e com o desejo. E, se há algo que se sustenta nessa lógica de “dar o que não se tem”, é justamente a possibilidade de reconhecer no outro não uma completude, mas uma abertura, um espaço onde também nos encontramos.

    Talvez possamos dizer que o amor é movimento. Não como uma definição fechada, mas uma experiência em constante transformação. Ele não se encerra em palavras, tampouco em fórmulas universais.

    No fim, amamos o outro, sim. Mas também amamos aquilo que, ao encontrar o outro, conseguimos reconhecer em nós mesmos. E talvez o mito soubesse disso desde o início, pois até mesmo Cupido precisou ser atingido pela própria flecha para descobrir que ninguém está imune ao amor.

    Atire a primeira pedra quem nunca se feriu com a própria flecha.


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