
Por: Rozembegue Alex Teixeira
Antes de entrarmos na moeda em questão precisamos entender que as moedas não serviam apenas como meio de troca nas civilizações antigas. Elas também representavam poder político, prosperidade econômica e a identidade cultural de povos que marcaram a história da humanidade. Cunhadas em metais preciosos e adornadas com símbolos, divindades e governantes, essas peças ajudavam a fortalecer a autoridade das cidades e facilitavam o comércio entre diferentes regiões.

Entre os exemplos mais conhecidos está Atenas, na Grécia, que cunhou a famosa Tetradracma de prata, conhecida como “Coruja de Atenas”. Produzida a partir de 512 a.C., a moeda trazia a imagem da deusa Atena em um dos lados e uma coruja, símbolo da sabedoria, acompanhada de um ramo de oliveira no outro. Graças à força econômica ateniense, a moeda tornou-se amplamente aceita no mundo antigo.

Outra potência que utilizou a moeda como símbolo de autoridade foi Roma. Por volta de 211 a.C., os romanos introduziram o Denário, moeda de prata que se tornou padrão em todo o Império Romano. As peças geralmente exibiam o rosto dos imperadores ou representações de vitórias militares, funcionando também como instrumento de propaganda política.
Já Esparta, conhecida por sua rígida disciplina militar, adotou um caminho diferente. Enquanto outras cidades valorizavam moedas de ouro e prata, os espartanos optaram por utilizar pesadas moedas e barras de bronze local. A partir de cerca de 220 a.C., essa política buscava desencorajar o acúmulo de riqueza e preservar os valores de austeridade que caracterizavam a sociedade espartana.
Essas moedas atravessaram séculos e hoje são importantes testemunhos históricos. Mais do que objetos de valor, elas ajudam arqueólogos, historiadores e colecionadores a compreender a organização econômica, as crenças e o poder das grandes cidades que moldaram o mundo antigo.

A Moeda que Judas recebeu para trair Jesus?

No Oriente Médio, a cidade portuária de Tiro, na antiga Fenícia, atual Líbano, destacou-se pela emissão do famoso Siclo de Tiro. Cunhadas entre 126 a.C. e 67 d.C., essas moedas de prata eram reconhecidas pela precisão de seu peso e pureza do metal. Sua importância foi tão grande que elas eram aceitas para o pagamento do imposto do Templo Judaico, sendo mencionadas em relatos do Novo Testamento.
Trinta moedas de prata foi o preço pelo qual Judas Iscariotes traiu Jesus, de acordo com uma citação do Evangelho segundo Mateus 26:15 no Novo Testamento. Antes da Última Ceia, Judas disse ter ido aos chefes dos sacerdotes e concordou em entregar Jesus em troca de trinta moedas de prata, tendo depois devolvido o dinheiro, por sentir remorso de seu ato.

A palavra utilizada em Mateus 26:15 (ἀργύρια, argyria) simplesmente significa “moedas de prata”, e os estudiosos discordam sobre o tipo de moeda que teria sido usada. O professor britânico Donald Wiseman sugeriu duas possibilidades; poderiam ter sido utilizadas os tetradracmas de Tiro, geralmente referidos como siclos de Tiro (14 gramas de 94% de prata), ou estáteres de Antioquia (15 gramas de 75% de prata), as quais levavam a cabeça de Augusto.

Alternativamente, surge a possibilidade de terem sido tetradracmas ptolemaicos (13,5 ± 1 g de 25% de prata). Na avaliação pontual de US$ 17,06/oz (com preço verificado em 2017), trinta “moedas de prata” valeriam entre US$ 185 e US$ 216 no valor atual americano (USD).
O siclo de Tiro pesava quatro dracmas atenienses, cerca de 14 gramas, mais do que os siclos israelenses anteriores, de 11 gramas, mas eram considerados os equivalentes a deveres religiosos na época.
Como a cunhagem romana era de apenas 80% de prata, os siclos tírios mais puros (94% ou mais) eram obrigados a pagar o imposto do templo em Jerusalém.
Os cobradores de impostos citados nos Evangelhos do Novo Testamento (Mateus 21:12 e similares) trocavam siclos de Tiro pela moeda romana comum.

No período medieval, algumas instituições religiosas exibiram moedas antigas da Grécia da ilha de Rodes como réplicas das trinta moedas de prata. As representações dessas moedas mostravam o deus do sol, Hélio, na parte da frente, com raios que se espalhavam pela parte superior. Esses raios foram interpretados como uma referência à coroa de espinhos utilizada por Jesus, mas na verdade nunca saberemos ao certo qual foi a moeda, da traição de Judas, o que podemos é especular e teorizar
Pesquisa baseada em registros históricos de numismática antiga, acervos do British Museum, American Numismatic Society e literatura especializada sobre moedas gregas, romanas e fenícias.
Fontes:
A History of Ancient Greek Coinage – Martin Jessop Price.
Roman Coins and Their Values – David R. Sear.
The British Museum Collection Online
American Numismatic Society
Encyclopaedia Britannica – Ancient Coinage
The Metropolitan Museum of Art – Greek and Roman Coins
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