Medalha concedida por Dom Pedro II destaca ato heroico de marinheiro

    Por: Rozembergue Alex Teixeira

    Criada no início do reinado de Dom Pedro II, a medalha com a inscrição “Ama ao próximo como a ti mesmo” foi instituída para reconhecer pessoas que prestaram serviços extraordinários à humanidade, tornando-se uma das mais significativas honrarias do período imperial brasileiro.

    Retrato do marinheiro Simão do Vapor Pernambucana. Óleo sobre tela, 93cm x 72,6cm, de autoria de José Correia de Lima. Museu Imperial de Belas Artes, Rio de Janeiro.

    Um dos homenageados foi o marinheiro cabo-verdiano Simão Manuel Alves Juliano, condecorado pelo imperador após protagonizar um ato de bravura em 1853. Simão recebeu a medalha por resgatar os 13 sobreviventes do naufrágio do vapor “Pernambucana”, salvando vidas em uma ação marcada pela coragem e pelo espírito humanitário.

    Seis de outubro de 1853.

    Um navio a vapor em 1853.

     O Vapor Pernambucana deixa a barra do Rio Grande com destino ao Rio de Janeiro. O navio traz, além da tripulação, muitos passageiros, num total de 124 pessoas.

    O vapor Pernambucana já tinha história. Foi o segundo navio a ostentar esse nome na Marinha do Brasil.

    Nos anos de 1848-49 foi fretado à Cia. Brasileira de Paquetes a Vapor para transportar tropas da Bahia e do Rio de Janeiro para Pernambuco, Província convulsionada pela chamada “Revolta Praieira”.

    Em 1853 retornava as suas viagens rotineiras e regulares no trajeto de cabotagem no trecho entre o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, com parada em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, para abastecimento.

    O dia estava nublado e o mar calmo, nada demonstrando o que estava por vir.

    Já fora da barra do porto de Rio Grande, alguns quilômetros ao norte, o tempo muda repentinamente. Um forte vento Leste (a famosa lestada) passa a soprar, com um forte temporal desabando em seguida.

    O comandante da embarcação, 1º tenente João da Silva Branco, sem maiores opções, dá ordens de continuar a viagem.

    Sem forças para vencer as ondas e o vento o navio fica totalmente perdido, vencido pelas forças da natureza.

    Três dias e noites depois, em 9, o vapor com suas máquinas esgotadas e já fazendo água, vai dar à praia do Morro Grande ou Campo Bom, ao sul do Cabo de Santa Marta, na Laguna (hoje Jaguaruna) onde encalha por volta das 11 da manhã.

    Desespero

    Era de desesperar qualquer um. Três dias e noites ao mar, perdidos, sacolejados daqui pra lá, sem avistar terra, já quase sem esperança de sobreviver, com a ameaça de a qualquer momento a embarcação afundar.

     Manoel Joaquim de Almeida Coelho, em sua “Memória Histórica da Província de Santa Catarina”, editada e publicada em 1854, portanto no ano seguinte aos acontecimentos, e reimpressa em 1877, narra sobre o acontecimento:

    “A confusão, sempre natural nestes conflitos, e o desejo da salvação da vida, animou quase toda a tripulação (com o respectivo prático José Maria Olival) e muitos passageiros a se arrojarem ao mar, em demanda da praia; mas ali, antes de chegarem, alguns foram vítimas desse arrojo”.

    O jornal Correio Catharinense, de 30 de novembro de 1853, editado em Florianópolis, já que Laguna ainda não possuía imprensa à época, descreve o desastre, certamente baseado em testemunhos de alguns dos sobreviventes:

    “No dia 8 pela tarde perorou o tempo e à noite o navio lutava com um dos mais fortes temporais, daqueles que costumam cair nas costas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

    O vento tinha a força de um tufão, o mar se tinha tornado em altas montanhas, que pareciam cobertas de areia, e o vapor lutava com a morte, levado pela caprichosa e terrível agitação das vagas.

    Foi uma noite de cruéis angústias e ansiedades; muitas vezes esteve o navio quase submergido e os pobres passageiros outras tantas viram a morte. Tantas lutas tinham esgotado as forças do infeliz navio e os mares haviam arrebatado seus dois escalares”.

    Simão, o marinheiro herói que salvou 13 vidas

    Entre os marinheiros havia um de nome Simão, português, natural da cidade de Cabo Verde, na África.

    Saul Ulysséa, numa crônica sobre naufrágios acontecidos na Laguna, publicada anos depois no jornal O Albor, escreve sobre esse personagem:

    “Foi notável neste naufrágio, a coragem e destreza de um preto, português, natural de Cabo Verde. Era um homem forte e exímio nadador. Foi o primeiro a chegar a terra, onde descansou algum tempo, voltando para bordo, de onde conduziu um cabo para terra. Apesar de fortíssimas ondas, os passageiros e a tripulação admiravam a maneira como o nadador as vencia. Por meio do cabo foram salvas muitas vidas”.

    Já no segundo dia, deram por falta de uma senhora com seus cinco filhos. Continuavam a bordo, pedindo socorro. O navio já começava a desmanchar-se. Nosso herói Damião, sem vacilar se atira ao mar e salva cada uma delas, trazendo-as a nado para terra. Treze vidas ele salvou.

    Já o jornal Correio Catharinense, assim descreve o feito do marinheiro Simão:

    “Treze vezes foi o marinheiro Simão de terra a bordo, nadando, guiado pelo cabo, e de cada vez salvava uma vida; quando depois de muitas viagens a força parecia abandoná-lo, parava um instante, deitava-se, revolvia o corpo na areia e partia de novo. É mister atribuir este grande esforço não só a coragem, como aos sentimentos de humanidade de que é dotado o marinheiro Simão, e ele merece o duplo galardão de corajoso e de sensível: estas duas qualidades reunidas em um só homem constituem um tipo raro e digno de maior admiração”.

    O dia seguinte

    Os sobreviventes foram abrigados provisoriamente na casa do inspetor de Campo Bom, Jesuíno de Souza Machado, situada a uma légua da praia, onde receberam comida e roupas e foram amparados pela esposa e duas filhas do inspetor.

    “Na manhã seguinte (10), relata ainda o Correio Catharinense, via-se pela praia restos do navio, o mastro já tinha caído e o meio do navio mergulhado até a proa. Os naufragados estavam na casa do inspetor aguardando transporte para o centro da Laguna. Para trás deixavam sepultados os cadáveres de seus infelizes companheiros. Na Vila da Laguna foram recebidos como bons irmãos e carinho possível.

    A notícia do naufrágio chega às autoridades da Laguna

    A notícia do naufrágio chegou às autoridades e à população da Laguna. Logo o subdelegado de polícia José Antônio Fernandes Vianna, acompanhado dos cidadãos tenente-coronel Jerônimo Coelho Netto, major Francisco de Souza Machado, capitão Custódio José de Bessa, Domingos Custódio de Souza e o vigário da paróquia da Laguna Francisco de Santa Isabel, mais uma força da Guarda Nacional, se apresentou no local da tragédia, oferecendo ajuda.

    Oitenta e duas pessoas foram salvas e quarenta e duas morreram afogadas, rolando pelas areias da praia.

    Dos sobreviventes, “menos de dez preferiram voltar por terra para o Sul”.

    Setenta e dois chegaram ao centro da Laguna no dia seguinte e foram abrigados em várias casas. Logo foi feita uma subscrição entre os mais abastados da cidade.

    O exemplar da condecoração integra o acervo do Museu Imperial de Petrópolis, preservando a memória de um gesto que simboliza solidariedade, altruísmo e dedicação ao próximo. A inscrição gravada na medalha, inspirada no ensinamento cristão “Ama ao próximo como a ti mesmo”, reforça o propósito da honraria: reconhecer aqueles que colocaram a vida e o bem-estar de outras pessoas acima dos próprios interesses.

    Mais do que um objeto histórico, a medalha representa um importante registro do reconhecimento concedido pelo Império do Brasil a atos de heroísmo e humanidade que marcaram a história.

    O vapor Pernambucana já tinha história. Foi o segundo navio a ostentar esse nome na Marinha do Brasil. Nos anos de 1848-49 foi fretado à Cia. Brasileira de Paquetes a Vapor para transportar tropas da Bahia e do Rio de Janeiro para Pernambuco, Província convulsionada pela chamada “Revolta Praieira”.

    Em 1853 retornava as suas viagens rotineiras e regulares no trajeto de cabotagem no trecho entre o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, com parada em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, para abastecimento.

    Fontes consultadas: Museu Imperial de Petrópolis/ Blog do Valmir Guedes.

    Para receber notícias no seu WhatsApp clique aqui
    E para receber notícias da nossa página no Facebook
    Se inscreva no nosso canal do you tube para receber nossas reportagens, clique aqui

    SAL : Serviço de atendimento ao leitor – para enviar mensagem, informar erro, elogiar, solicitar cobertura jornalística ou indicar pauta, entre em contato com o Serviço de atendimento ao leitor, via whatsapp, clique aqui