
Por: Rozembergue Alex Teixeira
Há pinturas que nascem de uma ideia planejada. Outras surgem aos poucos, quase como se a própria obra conduzisse a mão de quem a pinta. Esta tela pertence, para mim, a essa segunda categoria.
Ao criar esta obra, quis trabalhar com uma imagem que falasse de transformação. A figura feminina, vista de costas, carrega sobre si uma borboleta. Não é apenas uma composição estética. A borboleta representa aquilo que todos nós, em algum momento, experimentamos: mudanças, recomeços, perdas, descobertas e a construção de uma nova versão de nós mesmos.
Foi justamente por isso que escolhi o título “Metamorfose em Ouro”.
O ouro utilizado na obra é um elemento que merece atenção especial. O folheado a ouro não foi colocado simplesmente para ornamentar o quadro ou produzir um efeito de luxo. Ele faz parte da narrativa da pintura. Sua presença cria luz, profundidade e movimento, fazendo com que o fundo se modifique conforme a iluminação e o ponto de observação.
Sempre me chamou a atenção a maneira como o ouro foi utilizado na história da arte. Durante séculos, ele esteve associado à luz, ao sagrado, à permanência e ao que era considerado precioso. Nesta pintura, procurei trazer essa linguagem para uma representação mais contemporânea e pessoal.


O dourado envolve a personagem, mas não a aprisiona. Pelo contrário, parece abrir espaço para que ela atravesse um processo de transformação.
A escolha de representar a mulher sem mostrar seu rosto também foi intencional. Ao esconder sua identidade, a personagem deixa de ser apenas uma pessoa específica. Ela pode ser qualquer um de nós. Pode representar alguém que está deixando uma fase para trás, enfrentando mudanças ou simplesmente descobrindo novos caminhos.
E então surge a borboleta.
Com suas asas coloridas, ela ocupa o centro da obra e se transforma quase em uma extensão do corpo da personagem. Para mim, é impossível olhar para uma borboleta sem pensar em metamorfose. Antes de ganhar asas, ela passa por um processo silencioso, fechado e necessário. A transformação acontece primeiro por dentro para depois se revelar ao mundo.
Talvez seja justamente isso que eu tenha procurado representar.
O azul traz profundidade e contrasta com o dourado. O preto cria dramaticidade. Os tons terrosos aproximam a obra da matéria, enquanto os vermelhos e amarelos presentes nas asas acrescentam vida e movimento.

E existe ainda uma característica que considero particularmente interessante: o ouro muda conforme a luz. Em determinados momentos, ele parece mais intenso; em outros, mais discreto. A obra, portanto, nunca é exatamente a mesma. Ela também se transforma diante do olhar de quem a observa.
Como artista e como jornalista, sempre tive interesse pelas histórias que existem por trás das imagens. Nesta obra, procurei contar uma história sem palavras. Uma história sobre mudança, sobre identidade e sobre a possibilidade de recomeçar.
“Metamorfose em Ouro” é, acima de tudo, uma reflexão sobre transformação. O ouro representa a luz e aquilo que valorizamos; a borboleta representa a mudança; e a figura feminina representa todos nós diante dos caminhos que a vida nos apresenta.
Esta tela é uma obra minha, e talvez seu significado mais importante esteja justamente nisso: cada pessoa que olhar para ela poderá encontrar uma transformação diferente.
Porque, no fim, toda metamorfose começa quando aceitamos que já não somos exatamente quem éramos antes.
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