O materno se materializa

    Por Domenica dos Santos – Psicóloga

    Ao ser mãe, o que era imaginário se torna real. Chamo a atenção aqui para a diferença entre um imaginário fantasioso, onde tudo é lindo e belo e a realidade, onde há uma mistura de sentimentos como amor, medo, incapacidade, força, insegurança e falta.
    Posso dizer, com certa experiência, que não há território mais instável do que o de uma mãe. E também digo que, na mesma medida, não há território mais forte, bonito e voraz.
    Ao se tornar mãe, uma mulher se transforma, pois fica muito difícil escapar de si mesma. Ao se ver produzindo um “fruto” que é causa de desejo, ela se vê não só como a mulher que gesta, mas também como a filha que foi um dia. E essa triangulação entre mulher, mãe e filha vem à tona junto a esse ser que chega tão frágil e dependente do outro.
    Ser mãe é doar muito de si. Por nove meses, emprestamos o nosso corpo e um se transforma em dois, às vezes, em três, quatro. É, sem dúvida, uma experiência de grande intensidade e, nesse aspecto, pode ser vivida como uma dádiva, um privilégio incomensurável.
    Mas também é uma experiência de certo vazio de si, pois, em alguma medida, é preciso sair de cena para que o outro surja. Muda-se tudo. Há mulheres que não se reconhecem, outras se preenchem, se acham lindas, se sentem tão bem como nunca antes.
    Então, digo que a maternidade se materializa. Aquela brincadeira infantil de cuidar de bonecas revela algo que só se compreende plenamente quando é vivido. Há algo que exige mais, que envolve mais e que marca a vida em um antes e depois de ser mãe.
    Essa materialização se atualiza a cada fase e na continuidade daquilo que, de fato, nunca saberemos completamente. Está aí uma certa frustração pela qual todas as mães passam, a de afirmar saber o que o filho gosta ou não, e, ainda assim, ser surpreendida pelo mesmo que diz o contrário.
    Acredito que não apenas na gestação, para que a maternidade se materialize, será sempre necessário ceder espaço para que esse outro ocupe com tudo aquilo que é. Uma certa dualidade, entre uma igualdade que se individualiza e se faz diferente.
    Então, para todas as mães que nasceram junto com seus filhos e se concretizaram a partir dessa experiência única, fica talvez a marca de que a maternidade não se encerra no nascimento. Ela continua se materializando nos encontros, nas faltas, nas descobertas, nas renúncias e também naquilo que jamais poderá ser totalmente sabido sobre esse outro. Porque ser mãe é, ao mesmo tempo, reconhecer algo de si e aceitar que o filho será sempre um sujeito para além de nós.

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