A deusa do carro branco

    Era para ser apenas uma gentileza despretensiosa, um auxilio necessário, para quem não resistiu às pedras escorregadias da Rua Amália Bernhaus com Rua São Francisco de Assis, perto da igreja de mesmo nome no centro da belíssima cidade de Ouro Preto.

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    Uma linda mulher estacionou seu carro branco, bem em frente à famosa feirinha de pedra sabão, quase encontrando com a Rua Cláudio Manoel, conhecida mais popularmente como Rua do Ouvidor. Parou seduzida pela belíssima imagem que naquele momento chamava a atenção de quem passava pelo Largo de Coimbra.

    A igreja de São Francisco de Assis estava envolvida por um branco que parecia um véu de noiva, e ela não resistindo a aquele espetáculo de beleza – mais um dos caprichos da bela cidade de Ouro Preto – pôs se a fotografar o monumento. Naquele movimento de busca pelo melhor ângulo, ela se descuidou, e escorregando foi ao chão.

    Eu estava do outro lado rua quando a vi cair, corri na direção dela e estendendo-lhe a mão ofereci ajuda. Percebendo que estava um pouco envergonhada, tratei logo de dar leveza ao momento. Transferi para o piso escorregadio toda a culpa de sua queda. Contei mais alguns casos de pessoas que também caíram nessas centenárias calçadas. Dei algumas dicas para minimizar os riscos, porém as sandálias que usava não tinha tanta aderência. Penso que seu pensamento ao sair de casa era desembarcar apenas no destino final, mas não quis perder a oportunidade de eternizar um momento tão lindo.

    Ofereci meus braços e me dispus a caminhar com ela o tempo necessário para concluir seus registros fotográficos. Um sorriso bonito e desarmado foi o que recebi como forma de agradecimento. Caminhei com ela alguns metros na estreita Rua das Mercês, onde de vários ângulos fotografou a igreja. Subiu a escada que dá acesso ao adro do grande templo – aquela próxima da igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões – de lá fez mais fotos, e depois caminhando na direção da saída parou brevemente e ficou olhando o encontro da névoa branca, com a escuridão da noite. Aquele efeito branco acinzentado a encheu de fascínio. E sob esse tom que a deixou maravilhada, fotografou a feira de pedra sabão e mais a frente à Casa de Gonzaga.

    Nesse ínterim, vi meu ônibus passar, mas não me importei, a moça do carro branco era uma pessoa agradabilíssima e sua companhia me fazia muito bem.

    Enquanto nos deslocávamos entre um lugar e outro, me ocorreu à vaga lembrança de tê-la visto caminhando lá pelos lados dos bairros cabeças com São Cristóvão, mas não mencionei o fato.

    Depois que se deu por satisfeita, a acompanhei até seu carro branco e nos despedimos. Ela até me ofereceu carona, mas estávamos indo em direções opostas.  

    Assim que ela foi embora, voltei para o ponto de ônibus e fiquei a espera-lo.

    A escuridão da noite já se misturava com a neblina, o vento era calmo, mas muito frio.

    O ônibus não demorou a chegar e alguns minutos depois eu já estava no meu sofá. Antes de tomar banho, tirei alguns minutos para descansar.

    Depois de alguns minutos em estado de profundo repouso, notei-me meio confuso, sentia certa euforia, meu coração batia rápido, arrepios inexplicáveis. No ar tinha um perfume que não era meu, estava em cada canto da sala.

    De repente esse conjunto de coisas, associado a aquele perfume agradável, foi formando em minha mente uma imagem de mulher. Como um holograma, eu vi nos mínimos detalhes a imagem daquela mulher que há poucas horas eu havia encontrado.

    Os meus olhos viam seus cabelos volumosos, rosto sereno, olhar que mais parecia uma espada afiada quando encontrava os meus. Avassalador se apossava do mais intimo de mim.  Golpeava meu peito, rasgando-me com uma força descomunal me tomando por inteiro. O sorriso era doce, fino, singular, gracioso. Seus ombros eram largos e ditavam o tamanho do abraço.   

    Eu tentava de todo jeito entender o que estava se passando, até perceber que era um efeito colateral, consequência do meu ato de ajudar.

    A minha intensão era apenas ajudar a moça do caro branco, não pensava em me apaixonar, mas meus sentidos acabaram guardando tanta coisa dela, que não tive opção. Da minha atitude em ajudar nasceu o amor.

    Meu cérebro bombardeou meu corpo com intensas substâncias geradoras de satisfação e realização, minha mente incapaz processar tanta informação, não pode fazer nada, e como resultado fez de mim um apaixonado.

    Os dias que seguiram foram dias de intensa procura. Em caminhadas diárias desbravei os bairros cabeças, São Cristóvão e centro. Alternei horários como tática de busca, mas não a encontrei. Vi muitos carros brancos e nenhum era o dela, sentei em pontos estratégicos, nos citados lugares, mas em vão foi minha espera e procura. Mas ainda não desisti, continuarei essa busca diariamente. Quem sabe num outro dia de neblina eu volte a encontra-la, ou quem sabe num desses espetáculos que Ouro Preto magistralmente promove, como o por do sol por exemplo. Ou ainda eu coloque num outdoor a seguinte frase:

        “Procura-se a deusa do carro branco”.