
Livro de Luiz R.R. Silva foi lançado no Museu Alphonsus de Guimaraens questiona barreiras raciais e sociais e faz parte das atividades do mês da Consciência Negra. A história contada no livro se passa no início do século XX, em Piranga, cidade vizinha de Mariana. “Este livro é um reflexo dos meus conflitos internos sobre o amor e a mineiridade” afirma o autor.

O lançamento de “A Camélia que ainda não brotou” foi uma iniciativa dentro do programa Minas Criativa, da Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), que visa promover a cultura e a literatura local. A narrativa que mescla realidade e ficção no livro de Luiz R. R. Silva busca contribuir para um debate mais amplo sobre as questões raciais e sociais na literatura contemporânea de Minas Gerais.
Por: João B. N. Gonçalves

No último sábado, 23 de novembro de 2024, o Museu Alphonsus de Guimaraens recebeu o lançamento do livro “A Camélia que ainda não brotou”, escrito por Luiz R. R. Silva, graduando do curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
O evento foi uma das atividades em celebração ao Mês da Consciência Negra em Mariana.
O livro de Luiz R. R. Silva, seu primeiro lançamento em prosa, aborda questões profundas sobre as barreiras raciais e sociais presentes na Zona da Mata mineira, mais especificamente em sua cidade natal, Piranga.
A obra questiona as contradições da democracia racial no Brasil e faz uma reflexão crítica sobre o legado do coronelismo, tratando de temas como o ódio à cor preta e as dificuldades históricas da população negra.
O autor explica que a inspiração para “A Camélia que ainda não brotou” vem de suas próprias experiências e trajetória acadêmica.

“Este livro é um reflexo dos meus conflitos internos sobre o amor e a mineiridade. A questão do amor e da poesia mineira sempre me foi desafiadora, mas ao transformar isso em uma novela, consegui encontrar um caminho para expressar minhas inquietações”, contou o autor.
Ele ainda explicou que a história se passa no início do século XX, em Piranga, e destaca a persistente marginalização da população negra, mesmo após a abolição da escravatura.
A protagonista da obra, Camélia, carrega em seu nome uma referência à flor símbolo do movimento abolicionista. Silva utiliza a camélia como metáfora para a luta contínua pela liberdade e igualdade, ressaltando que, embora a Lei Áurea tenha sido assinada em 1888, a verdadeira liberdade para os negros só veio muito depois e, em muitos aspectos, ainda está em construção no Brasil.
A obra, que tem uma narrativa poética e envolvente, não se limita a uma crítica histórica, mas também propõe uma reflexão sobre os desafios sociais contemporâneos. “A liberdade também é isso. A camélia só cresce com muito cuidado e, até chegar à maturidade, precisa de atenção. A luta pela liberdade e igualdade ainda é longa”, afirma Luiz, refletindo sobre a realidade ainda vivida pela população negra no país.

Diretora do Museu Alphonsus de Guimaraens, a professora Ana Cláudia Rôla destaca a importância do evento para a literatura local. “Eu já li o livro e ele faz uma narrativa literária com pontos históricos relevantes. É uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar da nossa região, e até mesmo nos dias de hoje. Fico muito feliz que ele tenha escolhido nosso museu para esse lançamento, pois precisamos fortalecer os escritores da nossa região”, comenta.
O lançamento de “A Camélia que ainda não brotou” foi uma iniciativa dentro do programa Minas Criativa, da Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), que visa promover a cultura e a literatura local. A narrativa que mescla realidade e ficção no livro de Luiz R. R. Silva busca contribuir para um debate mais amplo sobre as questões raciais e sociais na literatura contemporânea de Minas Gerais.
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O autor Sr. Luiz R.R. Silva disse ao jornal O Espeto :
“ Poderia definir esse livro como o produto do conflito. Isso porque ele trata de dois temas que sempre foram incômodos para mim: o amor e a mineiridade. Acredito que seja porque sou, essencialmente, poeta. A priori, é comum a afirmação de que todo jovem é poeta. Afinal, os jovens amam fervorosamente, se apaixonam e odeiam com facilidade, se revoltam e tem a esperança na utopia. Poesia é para mim sentimento, qualquer que seja, exacerbado, potencializado, escrito. Os jovens tem isso em excesso. Quando falamos de amor, há dezenas e centenas de poemas de amor escritos por jovens, alguns bons, a maioria pessimamente escrito. Esse desejo de fugir do lugar comum também se aplica a mineiridade. Um poeta mineiro deve falar de Minas Gerais, da cultura mineira idílica. Mas eu me pergunto, sobre os dois temas, agora, como falar de amor, sem falar de ódio? Sem falar dos amores que não se concretizaram? Sem falar da saudade, do luto, da desesperança, do medo. Como falar de mineiridade sem falar que esse Estado foi construído a partir da escravização das pessoas negras e da tentativa de genocídio dos povos indígenas. Sem compreender que a resistência forma as Gerais, e isso não é idílico. Sem compreender que a receptividade mineira, é, historicamente, uma receptividade com interesses. O apelido gaveteiro é um exemplo disso. Afinal, quando um pobre chegava nas casas escondia-se toda a prataria nas gavetas, e quando um nobre, pequeno burguês, pomposo aparecia tudo era exibido e gabava-se do requinte. Portanto, não é tarefa fácil. Todavia. Percebam a ironia. As demandas e inquietações que me afligiam na poesia foram respondidas na prosa. Esse livro, trata de um amor que luta por reexistir, amor que aparece de diferentes formas ao longo da narrativa. Utilizo por pano de fundo uma Piranga, aqui do lado, inventada do começo do século XX. Esse livro trata de questões negras, todavia, não é literatura negra. O motivo vocês veem. Quem quer ler literatura negra, leia Jefferson, Itamar, Firmina, Carolina, Machado, Miriam, entre tantos outros. O que faço aqui é, quase um exercício de tradução. Transmutar a concreta e bruta realidade histórica em literatura, que tem por objetivo último, se é que a arte tem objetivos, a denúncia.” Declaração do autor.
O livro está a venda no Museu Alphonsus de Guimaraens por 40 reais.