
Por: Hynara Versiani e João B. N. Gonçalves
No último sábado, 30 de novembro de 2024, a exposição “Paisagens Mineradas” foi inaugurada no anexo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. A mostra, que reúne obras de 12 mulheres artistas, convida o público a uma reflexão sobre as marcas deixadas pela mineração na região, em especial após as tragédias de Mariana e Brumadinho.
A iniciativa, promovida pelo Instituto Camila e Luiz Taliberti, surge como um ato de transformação da dor em arte. Helena Taliberti, presidente do Instituto e mãe de duas das vítimas de Brumadinho, compartilha que a arte se tornou um refúgio para lidar com o luto e uma forma de honrar a memória de seus filhos. “A arte é aliada dessa dor indizível, avassaladora, que te joga numa tristeza profunda”, lamenta.

Simbolicamente, a abertura da exposição ocorreu no mês em que se completaram nove anos do rompimento da Barragem de Fundão. Helena explica que as datas dos rompimentos das barragens tanto em Mariana quanto em Brumadinho viraram um marco para a história de destruição da mineração, mas que não se pode deixar que caiam no esquecimento.
“Os marcos são importantes para lembrar sempre. Nós do Instituto lembramos diariamente, mas com o tempo, as pessoas que não têm ligação com o tema vão esquecendo o que aconteceu. O não esquecimento é também uma forma de alertar para a não repetição de tragédias dessa magnitude”, alerta.

A curadora Isadora Canela, também artista e residente em Brumadinho, explica que a exposição busca construir um manifesto visual, uma narrativa que coloca a mulher no centro da discussão. As obras, que vão de pinturas a instalações, revelam as cicatrizes da mineração no corpo e no território, mas também apontam para a possibilidade de regeneração.
Isadora conta que a premissa básica da exposição é pensar no lugar da mulher não só como artista, mas como montanha: “A mulher que está dentro de um sistema patriarcal, no mesmo lugar da montanha, que é esse corpo a ser explorado. Montamos uma seleção baseada em mulheres que vivem de alguma forma ou que pesquisam sobre as cicatrizes desse corpo-paisagem”.
As obras, expostas de formas variadas, como bordados, esculturas, fotografias, entre outras, são um meio para as artistas expressarem a dor, a raiva e a esperança. Isadora chama atenção, por exemplo, para a obra de Mari de Sá, que apresenta os registros gerais das 270 vítimas fatais de Brumadinho, e as pedras criadas por Silvia Noronha, feitas com resíduos da mineração.


“São duas obras que têm perspectivas muito diferentes. É muito impactante ver os RGs, porque traz uma humanidade muito grande, nos conecta diretamente com os nomes dessas vítimas soterradas. Mas na pesquisa da Sil, ela recria pedras pensando no futuro da arqueologia. Como o futuro vai nos ver?”, pergunta.
A curadora afirma que seu sonho é que as pessoas saiam da mostra olhando para as marcas do corpo-território, para esses lugares de paisagem, de forma questionadora. Helena Taliberti, por sua vez, comenta sobre a importância de se levar essa exposição para diferentes cidades e públicos.

Para ela, cada região do Brasil tem sua relação com a mineração, e em qualquer um desses lugares, as narrativas sobre a mineração são conflitantes, às vezes polarizadas. “Buscamos oferecer uma perspectiva que vai além das palavras, que contribui para ampliar a conscientização trazendo a percepção das emoções. Em 2025, queremos ir para mais lugares”, revela Helena.

A curadora do Museu da Inconfidência, Carla Cruz, também executou a curadoria de “Paisagens Mineradas”. “É com muita satisfação que me juntei à Isadora Canela para trazermos essa belíssima exposição. Ela resgata a memória daqueles que perderam a vida nessas tragédias, e busca dialogar com outro futuro possível”, conta.
De acordo com Carla, a exposição “traz um olhar delicado sobre o processo de luto individual e coletivo, sobre a transformação da dor da perda em força reconstrutiva”. “Paisagens Mineradas” ficará no anexo do Museu da Inconfidência, na Sala Manoel da Costa Athaíde, até dia 15 de março de 2025.

A exposição “Paisagens Mineradas” ficará no anexo do Museu da Inconfidência, na Sala Manoel da Costa Athaíde, até dia 15 de março de 2025.
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