Época dos Encantados

    Uma das profissões mais difíceis é a de encantador de homens. Eles querem conquistar os nossos corações e mentes, e para isso precisam usar todos os meios, mas principalmente um: conhecer os interesses daqueles que querem capturar com seu encanto.

    Vale tudo : discursos emocionados, poses, defender aquilo que não se importa, como ser contra a caça de ursos no Ártico para se valer da imagem do protetor dos filhotes. A imagem pode trazer a realidade mais longínqua para intimamente perto.

      Para os encantadores é isso que importa;  a imagem, a narrativa, o discurso. A dança de encantamento começa antes mesmo de começar, só com os cuidados com a aparência para cada ocasião, cuidadosamente preparada de acordo com o alvo a ser conquistado. Nem arrumado demais, nem desleixados demais. No discurso até a linguagem é pensada; nem rápido, nem devagar, nem culto, nem tão coloquial. Técnicos surgem cada vez com novos métodos e meios preparando os encantadores para o antigo objetivo: encantar.

    O objetivo dos ensinamentos é atrair aplausos e conquistar mentes e corações! Falar do que a plateia quer ouvir. Afinal o que se quer é encantar a maior parte dos ouvintes. O discurso pode ser alterado, de acordo com a ocasião, sempre buscando o objetivo maior : encantar.  

    Também faz parte do jogo atrapalhar outros encantadores que buscam conquistar os mesmos homens e mulheres. Vale difamar, mentir, criar obstáculos e armações. Não há ética neste jogo, vale apenas o resultado.

    Mas por que todo esse trabalho para conseguir encantar?  Simples: uma pessoa encantada é um apoiador gratuito, um inabalável defensor daquele que a encantou, a ponto até de brigar com parentes, de parar de conversar com quem não está encantado ! O encantado é capaz de alimentar o ódio contra aqueles que não são encantados e aprende a resumir o mundo em duas partes : aliados e inimigos.

    Depois que a pessoa é encantada é necessário manter o encantamento. Mas manter o encantamento é difícil ! Doses diárias de discursos, imagens, música, até grupos de apoio com a mesma opinião se formam, com o intuito de manter o encantamento e fortalecê-lo. Por isso o encantado passa a receber por todos meios de comunicação disponíveis conteúdo necessário direcionado para manter seu encanto. Cria-se uma relação de dependência.

    Nesse contexto todo, de busca por encantamento, na infinita tentativa de agradar, o encantador vê-se desesperado quando alguém aparece armado com a sinceridade, com a simplicidade da própria opinião, o que significa não ter medo de desagradar.

    Esse novo homem, no amplo sentido humano da palavra, que não tem medo de desagradar, que não tem medo de dizer não, que sabe que tentar agradar a todos é caminho para desagradar a todos, é o humano mais necessário na atualidade, pois consegue discernir a propaganda, a ilusão,  da realidade.

    Hoje num ambiente de opiniões estratificadas, necessita-se cada vez mais do desencantador, aquele que não é escravo da ocasião, mas é livre o suficiente para ter sua opinião que pode desagradar ao ambiente polarizado entre encantados de um lado e encantados de outro lado.

    Quem se torna fã de políticos está encantado, e assim usa a medida do seu conhecimento para medir a realidade. Apenas quando desencantar e passar a ver sem a paixão do encanto, poderá discernir a propaganda da realidade.