Os estudantes fundaram a URSO – União das Repúblicas Socialistas de Ouro Preto em pleno Regime Militar. Dentro desse movimento estudantil, ocorriam desde reuniões e estudos sobre o contexto político do país até manifestações opostas à ditadura durante as celebrações do 21 de abril naquela época. Claro que estudantes foram penalizados, perseguidos e expulsos, como foi o caso de Cesar Maia, Lincon Viana e Pedro Garcia, que se exilaram no Chile.

A historiadora Letícia Ribeiro disse que : “Realizar uma ‘caminhada da memória’ em uma cidade como Ouro Preto, reconhecida mundialmente por seu patrimônio colonial, é fundamental para ampliar o olhar sobre o território e romper com a ideia de que sua história se encerra no século XVIII.”
Por Helena Paz
Ouro Preto recebeu no dia 14 de novembro a 8ª edição do projeto multicultural Sextas Abertas, que aconteceu no Núcleo de Artes & Ofícios da FAOP (Fundação de Arte de Ouro Preto) e na Praça do Antônio Dias, com entrada gratuita e muitas atividades ao longo do dia. O evento é idealizado pela FAOP e se mostra importante para a valorização cultural da cidade, promovendo a diversidade de expressões artísticas que a região possui.
O tema desta edição foi baseado no Novembro Negro e contou com diversas atividades que remetem aos saberes tradicionais e à valorização de memórias sociais importantes. Um dos destaques foi o circuito guiado “Trilhas da memória da ditadura em Ouro Preto”, no qual as mediadoras Letícia Ribeiro e Vitória Ivo conduziram uma caminhada por pontos específicos da cidade onde as tensões históricas da ditadura estiveram presentes. O ponto de encontro foi na Praça Tiradentes, e o trajeto se estendeu pela Escola de Farmácia, Grêmio Tristão Ataíde e República Castelo dos Nobres.
A historiadora Letícia Ribeiro, entrevistada pela equipe do jornal O Espeto revela que Ouro Preto é um território que possui o passado colonial sobreposto a memórias mais recentes da história brasileira. A Praça Tiradentes exemplifica essa dualidade: segundo ela, era palco de manifestações populares contra a ditadura militar, mas também houve comemorações oficiais alinhadas ao regime — que buscava ressignificar o 21 de abril dentro da narrativa nacionalista.
De acordo com Letícia, a resistência em Ouro Preto acontecia de maneira plural. Embora não fosse um grande polo organizado contra o regime, possuía organizações pontuais que lutavam e se manifestavam abertamente.

“O Relatório Final do Grupo de Trabalho da UFOP para a Comissão da Verdade em Minas Gerais, ao analisar as violações ocorridas na Universidade — então composta pela Escola de Minas e pela Escola de Farmácia —, destaca a existência da URSO – União das Repúblicas Socialistas de Ouro Preto.”
Dentro desse movimento estudantil, ocorriam desde reuniões e estudos sobre o contexto político do país até manifestações opostas à ditadura durante as celebrações do 21 de abril, o que evidencia o tensionamento do significado da data.
Além disso, Letícia destaca que houve diversos tipos de manifestações, como jornais estudantis, debates e ações do movimento estudantil, que foram vigiadas e punidas pelo regime. Estudantes foram penalizados, perseguidos e expulsos, como foi o caso de Cesar Maia, Lincon Viana e Pedro Garcia, que se exilaram no Chile durante as perseguições. Ainda que esses protestos fossem sutis e distantes dos grandes centros de luta, houve vigilância e repressão, o que demonstra sua relevância no confronto ao autoritarismo do regime.
Para Letícia, “Realizar uma ‘caminhada da memória’ em uma cidade como Ouro Preto, reconhecida mundialmente por seu patrimônio colonial, é fundamental para ampliar o olhar sobre o território e romper com a ideia de que sua história se encerra no século XVIII.” Essa percepção contribui para evitar o apagamento de outras camadas históricas que a cidade possui e facilita o reconhecimento e a valorização de um passado marcado por lutas e resistências de moradores, estudantes e instituições locais.
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