Semeando Arte: Coletivo Vila Pobre reúne expressões periféricas em grande encontro no Taquaral

    Por Helena Paz

    Na noite do dia 21 de dezembro de 2025, em Ouro Preto, aconteceu no Bairro Taquaral o Grande Encontro do Vila Pobre, intitulado “Semeado Arte”.

    O evento contou com a presença de grandes artistas independentes locais, que trouxeram toda a potência da arte que circula na região. Hip-hop, dança e a exposição de pinturas “OJÚ: Exposição Etiópia”, do artista Gleisson Goulding, deram mais movimento à sede do coletivo, localizada na Avenida Farmacêutico Dúlio Passos, 130. O público também pôde prestigiar uma apresentação especial da Academia Ritmo de Rua, juntamente com outros artistas que também participaram.

    O coletivo Vila Pobre surgiu em 2016 e hoje é conduzido por Gabi Augusta e Kila Martins, entre outros produtores e arte-educadores que promovem a organização do grupo. Eventos como o Baile Charme e o Bololô são promovidos pelo coletivo em parceria com uma rede de artistas e voluntários. Além desses eventos, eles realizam arte-educação no espaço durante a semana, com aulas de capoeira, forró, o ensaio aberto da BDP (Batalha da Pracinha), entre outras oficinas.

    Em entrevista, Gabi Augusta falou sobre a importância de pontos de cultura para a população periférica de Ouro Preto. “Conviver com pessoas que viviam de arte me mostrou novas possibilidades. Eu comecei a ver valor em coisas que não via antes. A arte é muita coisa, a arte realmente salva, te ajuda a sonhar e a sair um pouco da realidade em que você está”, relatou. Como dançarina, ela conta como a arte a salvou de muitas angústias, e seu objetivo com o coletivo é levar essa ideia a quem frequenta o espaço. A coordenadora Kila Matias também comentou: “É um coletivo que está aberto pras pessoas, ele ta sendo sempre uma rede de apoio pros artistas, pras pessoas em vulnerabilidade, mulheres, homens, crianças, nós tentamos não só inserir as crianças na arte mas também levar elas como artistas”.

    A Batalha da Pracinha que se apresentou também, uma das atividades artísticas que acontecem semanalmente no coletivo, surgiu em meados de 2017. Hoje, fazem parte da organização Gagu013, De Cruz e Maju. A batalha já passou pela Biblioteca Municipal e se apresentou no Festival de Inverno de 2024, em parceria com o coletivo Majuma.

    A artista local Maju, produtora cultural e também organizadora da BDP, ressaltou a importância estética do freestyle e o significado simbólico da batalha para a comunidade: “A batalha fortalece muito a democratização do acesso a essa cultura de rua, do hip-hop, a todos os elementos que uma batalha carrega. O principal de todos é o conhecimento e a união entre pessoas, grupos étnicos e classes diferentes”. Em sua fala, ela destacou ainda a importância da educação pelo hip-hop para resgatar pessoas das vulnerabilidades impostas pelas ruas, promovendo uma união próspera diante das dificuldades.

    Entre os artistas que se apresentaram na noite, esteve o PM2, artista ouro-pretano e estudante de música na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), e que também faz parte do coletivo Vila Pobre. A poesia marginal que PM2 faz e representa está relacionada também à ideia de visibilidade trans, visto que são artistas apagados. O conteúdo presente em suas músicas fala sobre a vivência trans e as angústias que renascem em arte potente, sustentando existências que são marginalizadas e excluídas. Sobre o seu trabalho, ele comenta: “É difícil fazer a ponte entre a universidade e a comunidade, e a forma que eu encontrei é trazer o que eu to aprendendo na universidade pra dentro da sede do Vila Pobre”.

    Se apresentaram também os artistas BomBlack e o Aquiles, o Poeta, que hoje atuam no C.CRIA(Centro de Negócios Criativos), uma instituição da Secretaria de Assistência Social, e no Coletivo Vila Pobre, entre outras atividades como arte-educadores, dando oficinas de hip-hop e levando essa cultura para as crianças que frequentam o espaço, devido à construção de identidade que o hip-hop traz por meio da arte-educação. Sobre seu trabalho, BomBack coloca que: “É um lugar que eles se identificam mesmo, se sentem pertencentes no automático”.

    Sobre a importância da arte-educação, Aquiles, o Poeta, comenta: “O hip-hop pra mim é o que me organiza, e daí vem essa necessidade de passar isso pras crianças; foi o que me obrigou a estudar, a ter referências. O Vila Pobre tem uma atuação muito importante no sentido da produção cultural periférica e também no protagonismo feminino dentro do coletivo”.

    Malyf, artista paraense que atua também no coletivo, é dançarino e multiartista arte-educador e trabalha com isso há mais de 16 anos. Em entrevista, comentou sobre a potência da dança como linguagem do corpo e inclusão. “É uma forma de trabalhar no comunitário, tanto no físico, psicológico, mental. A dança abrange muito isso, a dança é possível para qualquer pessoa e eu gosto de mostrar isso”. Além disso, Malyf trouxe a importância  da criatividade aliada à desconstrução na promoção dos diversos ritmos de dança.

    Neste ano, o coletivo recebeu neste mês a oficialização pelo Cadastro Nacional de Pontos de Cultura, por meio da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural, e agora é oficialmente um ponto de cultura e encontro de expressões artísticas periféricas. A Prefeitura Municipal de Ouro Preto também prestou menção honrosa à expressão e arte que o coletivo promove na comunidade.