
Por: Rozembergue Alex Teixeira
Em um tempo em que a fotografia ainda era um privilégio restrito a poucas famílias, registrar a imagem de um ente querido após a morte era uma prática comum e socialmente aceita. As chamadas fotografias pós-mortem surgiram no século XIX e permaneceram populares até o início do século XX, especialmente na Europa e nas Américas, incluindo o Brasil.
A técnica consistia em fotografar pessoas já falecidas, muitas vezes organizadas de forma cuidadosa, vestidas com suas melhores roupas e posicionadas como se estivessem dormindo ou até mesmo vivas. Em alguns casos, os olhos eram pintados diretamente nas pálpebras fechadas ou inseridos posteriormente na imagem, numa tentativa de preservar a aparência de vida.


Segundo historiadores, esse tipo de fotografia atendia a um forte componente emocional. Em uma época marcada por altas taxas de mortalidade infantil, epidemias e expectativa de vida reduzida, a fotografia pós-mortem era, frequentemente, o único registro visual de uma pessoa. Para muitas famílias, tratava-se de um gesto de afeto e respeito, não de morbidez.
No Brasil, a prática acompanhou os costumes europeus, sobretudo entre famílias urbanas e economicamente favorecidas, que tinham acesso aos serviços fotográficos. Crianças eram os principais retratados, já que muitos faleciam antes de completar poucos anos de vida. Os registros costumavam integrar álbuns familiares, ao lado de fotografias de casamentos, batizados e outros rituais sociais.
Com o avanço da fotografia, a popularização das câmeras e as mudanças culturais na forma de lidar com a morte, o costume foi gradualmente abandonado. A partir da segunda metade do século XX, o tema passou a ser visto com estranhamento e desconforto, refletindo uma sociedade cada vez mais distante dos rituais fúnebres tradicionais.
Atualmente, as fotografias pós-mortem são objeto de estudo de pesquisadores, antropólogos e historiadores da arte. Mais do que imagens de morte, elas revelam valores sociais, crenças religiosas e formas de luto de outras épocas, ajudando a compreender como diferentes sociedades lidaram — e ainda lidam — com a finitude da vida.
Preservadas em museus, arquivos históricos e coleções particulares, essas imagens seguem despertando curiosidade e reflexão, funcionando como testemunhos silenciosos de um período em que a fotografia cumpria um papel essencial na construção da memória familiar. Fontes, consultadas; Dissertação “Representações da morte: fotografia e memória”, PUCRS – estudo sobre fotografia mortuária no sul do Brasil. PUCRS Repositório “Fotografia e tecnologia: o pós-morte no Brasil oitocentista”, Resgate (UNICAMP) – contexto cultural e tecnológico.
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