
“A falta de tratamento de esgoto e a deficiência no acesso à água potável, sem dúvida, são fatores que geram o aumento de quadros infecciosos de causa parasitária. Dessa forma, um município como Mariana, devido a essa particularidade, sempre terá doenças como a diarréia presentes.” Afirmou ao Jornal O Espeto Dr. Lincoln Assunção.
A média de domicílios conectados à rede de esgoto em Minas Gerais é de 80%, enquanto em Mariana é de 78,37% e em Ouro Preto de 77,49%, pelo último censo realizado.
Por Beatriz Granha e Leandro Henrique dos Santos
Mariana vem registrando uma média de 300 casos por mês de diarréia, porém estima-se que esse número possa ser muito maior devido a subnotificação, pois muitas pessoas não procuram atendimento médico.
A diarréia é causada pela ingestão de água ou alimentos contaminados. A transmissão oral-fecal são as causas mais frequentes da diarreia que facilmente é transmitida principalmente para crianças pequenas.
A má qualidade da água, seja por contaminação com bactérias, vírus ou parasitas, é uma causa comum de diarreia, que pode ser acompanhada de outros sintomas como náuseas, vômitos e dores abdominais.
A prevenção envolve beber água tratada, de manter boas práticas de higiene e saneamento básico eficiente, um desafio de todos município brasileiros mas principalmente para Mariana que convive com grande número de pessoas vivendo em área de invasão e ocupação sem infra-estrutura urbana adequada, como rede de água regular, coleta de esgoto e lixo.
Em municípios com melhores índices de saneamento básico, a taxa média de internações por diarreia é significativamente menor do que em áreas com infraestrutura deficiente. A falta de saneamento adequado é um fator chave na prevalência da diarréia.
De acordo com boletins epidemiológicos divulgados pela Prefeitura de Mariana, nos últimos três meses, o município apresentou mais de 300 casos mensais de diarreia, representando mais da metade de todos os diagnósticos epidemiológicos registrados.
No mês de setembro de 2025, por exemplo, foram 564 registros epidemiológicos no total, incluindo todas as causas. Desses, 321 foram de diarréia.
Pensando nisso, conversamos com alguns profissionais de saúde e especialistas em meio ambiente, que atuam em Mariana, buscando entender as possíveis causas do problema.
Apesar da possibilidade da diarréia acontecer por outras causas, como intolerâncias alimentares ou doenças intestinais, o médico Dr. Lincoln Assunção afirma que a causa mais frequente e de mais impacto na saúde pública é a contaminação, que gera algum tipo de processo infeccioso, causado por vírus, bactérias ou outros parasitas.
Dr. Lincoln afirma que as irregularidades no saneamento básico de Mariana fazem com que doenças infectocontagiosas aconteçam de forma crônica: “A falta de tratamento de esgoto e a deficiência no acesso à água potável, sem dúvida, são fatores que geram o aumento de quadros infecciosos de causa parasitária. Dessa forma, um município como Mariana, devido a essa particularidade, sempre terá doenças como a diarréia presentes. Pelo padrão epidemiológico de uma doença, é possível traçar um número de casos esperados, que tendem a atingir uma estabilidade. Quando ocorre um aumento considerável inesperado, provavelmente houve algum fator externo que contribuiu.”
O médico Dr. Rodrigo Miranda afirma que as diarréias de causa parasitária são, de longe, as mais frequentes, e que a ingestão de alimentos contaminados é a principal causa de infecções por parasitas intestinais, seguida da falta de higiene no manuseio de alimentos e na lavagem das mãos, o que está relacionado com a qualidade da água.
“Um exemplo que acontece é de uma pessoa com diarreia ir ao banheiro, não lavar as mãos, pegar na maçaneta de uma porta ou num corrimão, passar o vírus, bactéria ou parasita para aquele objeto, e depois outra pessoa passar sua mão naquele objeto tocado pelo doente e pegar em seguida um alimento, sem lavar suas mãos e comer. Isso vai levá-lo a um quadro de diarreia pela falta de higiene, por não lavar as mãos. Esse mecanismo de transmissão foi quase eliminado na pandemia de COVID-19, quando havia higienização das mãos frequente para não haver propagação do coronavírus e as diarreias praticamente desapareceram. Parte de nossa população é relapsa ou mal educada neste ponto.”
Além da contaminação oral-fecal, outra possibilidade de transmissão é o contato próximo com pontos de esgoto exposto:
“O esgoto não tratado, ou pior, a céu aberto, pode fazer com que ovos de parasitas intestinais flutuem no ar ou na poeira, sendo aspirados pelas pessoas que passam por ali e as adoecendo”, explica Dr. Rodrigo, explica o médico Dr. Rodrigo Miranda.

Saneamento Básico e Esgoto em Mariana
O problema do esgotamento é antigo em Mariana. Apenas o distrito do Novo Bento possui tratamento de água e esgoto feito pela RENOVA.
A cidade de Mariana ainda não possui tratamento de esgoto, e parte da população ainda não tem o resíduo coletado. De acordo com o dado mais recente encontrado, do Censo do IBGE de 2022, Ouro Preto e Mariana, apesar de configurarem duas das cidades com maior PIB do Estado de Minas Gerais, (12º e 15º lugar respectivamente), não estão nem entre as cem primeiras no quesito de acesso à rede de esgoto. A média de domicílios conectados à rede em Minas Gerais é de 80%, enquanto em Mariana é de 78,37% e em Ouro Preto de 77,49%, pelo último censo realizado.
A coleta é o recolhimento dos resíduos, e o tratamento diz respeito ao processamento adequado do material. Algumas regiões periféricas ainda não acessam a rede de coleta, e em diversos pontos de Mariana e Ouro Preto, incluindo a região central, é possível encontrar pontos de esgoto sendo despejados nos rios ou expostos a céu aberto.
O esgotamento sanitário integra o saneamento básico e é importante para garantir a qualidade de vida da população, a saúde pública e a higiene urbana.
Já existem avanços na coleta devido a obras realizadas pelo SAAE – Mariana recentemente instalando caixas coletores em alguns locais.
Está em andamento uma obra projetada em 2019, e iniciada em 2023, que prevê a construção de redes coletoras e interceptoras e, em seguida, a instalação de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Em consulta realizada em setembro de 2024, a obra estava em andamento e a previsão era de que toda a estrutura será finalizada até o ano de 2027.
O biólogo João Aranha explica que o esgoto não é o único fator a ser observado quando se pensa em quadros de gastroenterite (inflamação do estômago e dos intestinos, geralmente causada por vírus, bactérias ou parasitas, que provoca sintomas como diarreia, vômitos, cólicas abdominais, náuseas e febre). Segundo ele, é necessário analisar todo o contexto de saneamento básico, que abrange o abastecimento de água potável, o manejo dos resíduos sólidos e a drenagem e manejo das águas pluviais urbanas.
“Com o intuito de controlar gastroenterites, devemos dar atenção especial ao abastecimento de água potável. Mesmo que haja em Mariana sistemas de abastecimento que não possuem Estações de Tratamento de Água (ETA), a água destes sistemas é igualmente clorada, monitorada pelo SAAE e fiscalizada pela Secretaria Municipal de Saúde. Podem ocorrer falhas pontuais na cloração? Sim. Mas a detecção do problema costuma ser rápida, assim como sua correção. Por exemplo, a Secretaria Municipal de Saúde não coletou em 2025 nenhuma amostra de água de Mariana com ausência de cloro. Quando o cloro está ausente, a Secretaria Municipal de Saúde informa imediatamente o SAAE.”
Questionado a respeito da possível origem do alto número de casos de diarréia em Mariana, o biólogo João Aranha explica que não acredita numa causa única: “Até mesmo água tratada que chega em uma caixa d’água suja pode adquirir patógenos devido à falta de higienização. No verão, há uma tendência de aumento de casos de diarréia, pois o calor favorece a proliferação de bactérias e vírus. Por fim, o aumento (ou queda) no número de casos de diarreia também está ligada à notificação. Muitos munícipes com diarréia não procuram o sistema de saúde pelo fato de, geralmente, as gastroenterites serem autolimitadas. É recomendável que a população (especialmente idosos e crianças) sempre procurem o sistema de saúde para avaliação médica.”
O que dizem os órgãos públicos
Secretaria Municipal de Saúde de Mariana
Apesar dos altos números registrados, a Secretaria Municipal de Saúde disponibilizou um gráfico e esclareceu que não houve aumento de casos informados em 2025:
“De acordo com o Censo Demográfico realizado em 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população residente no município de Mariana era de 61.387 indivíduos. Utilizando a estimativa populacional intercensitária, o IBGE indica para o ano de 2025 uma projeção da população de 64.506 habitantes. Com base nesta projeção, a prevalência de diarreia na população do município está no intervalo de 0,3% a 0,6%. A faixa de prevalência de 0,3% a 0,6% indica que, o número de casos de diarreia no ano de 2025, variou entre 194 e 370 indivíduos, como podemos perceber que nos últimos três meses não houve um aumento do número de casos. Não houve incidente notificado em estabelecimentos de alimentação ou distribuição de água.”
Segundo o setor de Epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde, o trabalho do órgão é crucial para monitorar, investigar e controlar os casos de diarréia. As principais responsabilidades incluem o monitoramento e a notificação, por meio da Monitorização das Doenças Diarreicas Agudas (MDDA), além das medidas de controle e prevenção com a educação para a saúde, realização de campanhas para a população sobre higiene, lavagem das mãos, tratamento adequado de alimentos e água potável.
“O monitoramento contínuo, a análise de dados epidemiológicos e a implementação de ações preventivas e de controle são essenciais para transformar a saúde da população. A prevalência observada em 2025, portanto, não é apenas um número, mas um indicador que leva a interação e fortalecimento das políticas públicas voltadas para o saneamento, educação e vigilância em saúde no município”, reforça a comunicação oficial da Epidemiologia no município.
Segundo a Vigilância Sanitária, a fiscalização segue acontecendo de forma regular e efetiva, tanto em estabelecimentos alimentícios recém-abertos quanto naqueles já cadastrados anteriormente:
“Após a vigência da Lei da Liberdade Econômica, muitos empreendedores têm obtido a Licença Sanitária ou a Dispensa Sanitária com caráter declaratório e prévio à inspeção, o que resultou no aumento do número de estabelecimentos do ramo de alimentos na cidade. Ainda assim, a equipe mantém o fluxo de atendimentos e inspeções desde o início do ano, atuando conforme programação de rotina, denúncias, demandas espontâneas e ações conjuntas com outros setores.”
Além das fiscalizações de rotina, representantes alegam que a Vigilância Sanitária realiza ações educativas e preventivas voltadas à orientação da população e dos estabelecimentos manipuladores de alimentos, com foco no controle das doenças transmitidas por alimentos (DTA), além da distribuição de material educativo sobre prevenção de doenças diarreicas e boas práticas sanitárias em cozinhas.
“Através da Vigilância Ambiental, por meio do Programa VIGIÁGUA, o qual realiza a avaliação da qualidade da água para consumo humano em diversos pontos da cidade, este monitoramento é direcionado para os locais de maior incidência de casos de diarréia, de acordo com as notificações recebidas, a fim de solicitar adequações à responsável pelo abastecimento de água local, se necessário, e realizar orientações sobre a importância da limpeza e manutenção de caixas d’água em residências e comércios.”
Portanto é de crucial importância informar ao Posto de Saúde do bairro ou distrito ( PSF) casos de diarréia para orientar ações do poder público.
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