
“As benzedeiras são agentes sociais de extrema importância, agindo também como forma de acolhimento e conforto”; explica Celina Gontijo autora da dissertação de mestrado na UFOP intitulada “A prática da benzedeira: memória e tradição oral em terras mineiras” que valoriza os saberes das benzedeiras transmitidos de geração em geração que continuam integrando a rotina de cidades mineiras e constituem patrimônio cultural vivo.
Por Beatriz Granha
A prática do benzimento, ou benzeção, preservada há gerações em Minas Gerais e ainda presente no cotidiano de comunidades como as de Mariana e Ouro Preto, vai muito além do significado de um simples ritual religioso. Trata-se de um patrimônio cultural vivo, que une memória comunitária, identidade e cuidado social.
Por meio de rezas de cura, uso de plantas medicinais e saberes transmitidos de forma oral, as benzedeiras atuam como agentes de preservação das tradições locais, mantendo viva a história e a fé de suas comunidades. Essa tradição tem sido objeto de estudos acadêmicos, manifestações culturais e iniciativas comunitárias que reforçam seu valor na sociedade contemporânea.

Uma dissertação defendida pela Dra. Celina Gontijo na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), intitulada “A prática da benzedeira: memória e tradição oral em terras mineiras”, documentou essas práticas em cidades históricas, incluindo Mariana.
O estudo analisou a benzição não apenas como ritual religioso, mas como manifestação cultural e comunicativa, registrando entrevistas e observações detalhadas de benzedeiras da região. Pesquisas semelhantes em outros repositórios acadêmicos mostram que a benzição é marcada pela interação comunicativa, aspectos simbólicos e sociais que vão muito além da dimensão ritualística, envolvendo elementos da linguagem, da cultura e da vida comunitária no interior mineiro.
Em Mariana, as benzedeiras ainda desempenham um papel importante na vida das comunidades locais, apesar da crescente escassez da prática e dificuldade de encontrar representantes. Celina Gontijo, doutora em Estudos Linguísticos, explica que no momento da realização de sua pesquisa, em 2018, as benzedeiras encontradas em Mariana já eram muito idosas, e muitas delas pararam de benzer nos últimos anos, já que a prática exige muita energia. A pesquisadora destaca Dona Chiquita, benzedeira de Passagem de Mariana com quem estabeleceu contato no momento do estudo, mas que faleceu durante a pandemia.
As rezas de cura, muitas vezes combinadas com o uso de plantas medicinais, funcionam como expressão de fé e cuidado comunitário, fortalecendo vínculos sociais e mantendo viva a memória coletiva. Cada ritual carrega séculos de tradição oral, transmitida de geração em geração, consolidando a benzedeira como figura-chave na identidade cultural do interior de Minas Gerais.
Essas práticas, que combinam referências católicas com saberes populares e uso de plantas cultivadas nos quintais, surgiram historicamente como alternativas de cuidado acessível, especialmente em contextos de escassez de serviços médicos e longas distâncias das áreas urbanas.
“Considero a prática da benzição muito importante, especialmente para aliviar questões de cunho espiritual e psicológico, mas até mesmo sintomas físicos. Não é uma competição com a medicina tradicional, a prática surgiu da necessidade de acesso à saúde e até hoje as benzedeiras são agentes sociais de extrema importância, agindo também como forma de acolhimento e conforto”, explica Celina.
Acadêmicos do São Cristovão é campeã do Carnaval em Ouro Preto com o tema da benzição

Em Ouro Preto, a tradição do benzição foi incorporada a expressões culturais contemporâneas que ampliam a visibilidade desse saber ancestral. No Carnaval de 2025, a Escola de Samba Acadêmicos de São Cristóvão levou para a avenida o enredo “Se o Samba é a Cura da Alma, São Cristóvão Tem o Dom de Curar”, homenageando as benzedeiras locais e resgatando a herança cultural afro-indígena e popular presente na prática da benzição, com destaque à figura de Dona Maria, benzedeira tradicional do bairro São Cristóvão.
O tema, além de integrar a identidade cultural do carnaval de Ouro Preto, onde a escola tornou-se bicampeã com esse enredo, representa uma celebração dos saberes ancestrais e uma afirmação da tradição popular como parte da vida urbana nas cidades históricas.
Encontro de benzedeiras em Antônio Pereira

No distrito de Antônio Pereira, pertencente a Ouro Preto, mas geografica e culturalmente próximo a Mariana, a prática da benzição também se mantém viva e articulada coletivamente. O Encontro de Benzedeiras de Antônio Pereira, promovido em 2024 pela Assessoria Técnica Independente – ATI Antônio Pereira, evidenciou a força desses saberes tradicionais e sua importância para o território.
Durante o encontro, benzedeiras compartilharam rezas, histórias de vida e formas de aprendizado do ofício, reforçando que a transmissão do conhecimento ocorre principalmente pela oralidade e pela prática, muitas vezes passada de mãe para filha ou entre mulheres da mesma comunidade. Os relatos destacaram o uso de plantas medicinais, chás e ervas, além do caráter de escuta e acolhimento presente no benzimento.
O evento também ressaltou que a atuação das benzedeiras está ligada às lutas por reconhecimento das comunidades tradicionais de Antônio Pereira, especialmente em um território marcado por impactos históricos da mineração. Nesse contexto, a benzição aparece não apenas como prática espiritual, mas como ferramenta de resistência cultural, preservando saberes locais frente às transformações sociais, ambientais e econômicas.
Além dos contextos comunitários e festivos, iniciativas artísticas também ressaltam a dimensão cultural e social da prática.
EXPOSIÇÃO EM BELO HORIZONTE ” BENÇA A BENZA” :

A exposição “Bença a Benza”, em cartaz no Sesc Mercado das Flores em Belo Horizonte até 23 fevereiro de 2026, apresenta fotografias, oficinas de contação de histórias e vivências com plantas medicinais, aproximando o público da profundidade desse saber popular e destacando o valor histórico e antropológico da benzição.
O trabalho das benzedeiras é visto como uma ferramenta de cuidado comunitário e resistência cultural.
Em muitas comunidades, as benzedeiras são procuradas para aliviar dores físicas, e outras enfermidades típicas, como: “quebranto” , ventre virado, dor de cabeça de sol, difruço, susto, olho gordo, mau olhado, espinhela caída, nó nas tripa, torção ou destroncamento através do “cozer” o local atingido.
Além disso as benzedeiras atuam também como ouvintes e conselheiras, reforçando o papel social de fortalecimento de laços comunitários.
Nas cidades mineiras as benzedeiras continuam sendo símbolos de saber, cuidado e tradição. Sua atuação representa um elo entre passado e presente, preservando tradições que resistem ao tempo e às transformações sociais.
De acordo com a pesquisadora Celina Gontijo, as benzedeiras contatadas não demonstraram preocupação com a perda da tradição: “Elas não enxergam a benzição como um patrimônio imaterial a ser preservado. Para elas, é como um ensinamento familiar, algo corriqueiro que deve ser recorrido na hora do aperto. Não existe nenhuma preocupação em passar a tradição para as pessoas mais jovens, até porque a iniciação na benzição depende de outros fatores que vão além da própria vontade de manter a tradição. Antigamente os ensinamentos eram mais propagados porque os recursos eram menos acessíveis. Além disso, a pessoa a ser iniciada deve aprender uma proximidade com a religião e ter uma relação bem íntima com quem irá lhe passar os ensinamentos. Por isso é mais difícil a perpetuação da tradição nos tempos de hoje”, explica.
Na literatura acadêmica das áreas de antropologia, história e sociologia a benzição é vista como uma ferramenta cultural, social e histórica Especialistas demonstram preocupação com a perda dessa tradição e de seu significado simbólico para as culturas locais.
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