Amor não mata

    Por: Domênica Chaves dos Santos

    Não existe morte por amor. Quando a violência se apresenta em seu nome, o que se revela não é o laço com o outro, mas a incapacidade de sustentar a própria queda narcísica. Amar não é possuir, controlar ou fundir, é reconhecer a alteridade, admitir que o outro existe para além de nós, irredutível, não capturável.

    Recentemente, episódios que provocaram forte comoção social reacenderam o debate sobre violência contra a mulher e colapso psíquico. Diante de atos extremos atravessados por ciúme, posse e ruptura, ainda há quem os nomeie como crimes por amor. No entanto, quando a destruição emerge, não é o amor que se manifesta, mas a falência simbólica diante da perda e da impossibilidade de sustentar a própria ferida narcísica.

    Proponhamos um deslocamento. Imaginemos, por um instante, se cada mulher respondesse pela mesma via destrutiva. A hipótese evidencia o quanto certas violências foram historicamente atravessadas por relações de poder, nas quais o narcisismo ferido se confunde com posse, domínio e direito sobre o outro.

    Vivemos em uma cultura marcada por traços patriarcais, na qual, por muito tempo, a dor masculina encontrou autorização para converter se em violência, enquanto às mulheres foi destinado o silêncio. No entanto, não é no silêncio que se produz transformação, mas na elaboração e na recusa de naturalizar a destruição.

    O amor não é ordem, não é propriedade, não é fusão. O amor reconhece o outro como separado e suporta a falta. O que aparece nos chamados crimes por amor é a queda narcísica, quando o sujeito não suporta ser ferido, rejeitado ou substituído. Incapaz de elaborar a dor, tenta destruir fora aquilo que não consegue sustentar dentro.

    Não é laço. É colapso.

    Não é amor. É ferida narcísica.

    Amor não mata. O que mata é a incapacidade de suportar a própria queda.

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