Habitar a vida

    Por: Domenica dos Santos

    Existem pessoas que vivem, outras apenas sobrevivem. Viver talvez seja, antes de tudo, aprender a habitar a própria vida. Mas nem sempre fazemos isso. Muitas vezes atravessamos os dias no automático, ocupando os espaços da rotina, cumprindo expectativas, respondendo ao que o mundo exige, sem realmente nos perguntar de que maneira temos existido. Em algum momento, porém, essa pergunta aparece. E quando aparece, ela nos convida a olhar para a vida com mais honestidade e a refletir sobre o modo como escolhemos habitá-la.

    Pensemos que a vida é uma casa que recebemos sem escolher. Não escolhemos onde ela foi construída, nem quais marcas já existiam nela antes da nossa chegada. Não escolhemos os pais, a família, a cidade, nem a condição econômica inicial. Entramos nela já habitada por histórias, ausências, expectativas e limites que não foram definidos por nós. Esse talvez seja o primeiro confronto com a ideia de que viver não será tão simples quanto gostaríamos.

    Diante disso, surge uma segunda questão, talvez a mais difícil, mas também a mais interessante, que seria o que fazer com a casa que nos foi dada? Como habitá-la? É aqui que se insinua uma das perguntas centrais da existência humana, qual é o propósito da vida?

    Responder a isso não é simples. Trata-se de uma questão ampla, profundamente subjetiva. Ainda assim, me arrisco a dizer que o propósito talvez não esteja em algo grandioso ou previamente definido, mas na forma como cada um atribui valor à própria vida. Se a vida não tem valor para mim, os atos perdem importância. Se ela tem valor apenas para o outro, quando me sinto amado, mas preciso corresponder, passo a viver tentando interpretar o que esperam de mim. Agora, quando a vida precisa valer para mim, algo muda, me questiono, escolho e ajo conforme o meu próprio pulsar.

    Esse pulsar pode se sustentar de diferentes formas. Não se trata de escolher uma única via, mas de conseguir responder, ainda que provisoriamente, o que faz você querer acordar e se mover no mundo. Isso vai além da busca pela felicidade. Trata-se de viver em consonância com princípios e valores que se constroem ao longo do tempo, por meio da reflexão e de ações conscientes.

    Seja reformando cômodos, abrindo janelas ou aprendendo a habitar os espaços que sempre evitamos, o que se constrói é sempre a vida que insiste em ser. E essa vida, acredito, precisa ser vivida de modo que valha a pena para quem a vive. Ainda que seja duro reconhecer, há muitas pessoas atravessando os dias sem se dar conta de que estão vivas. E, infelizmente, não há finais felizes para aqueles que não se autorizam a habitar a própria casa.

    Talvez seja por isso estou aqui.

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